O companheiro Pedro Castillo não vem mais à posse de Lula

06.10.2026

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Augusto de Franco
7 minutos de leitura 11.12.2022 09:35 comentários
Opinião

O companheiro Pedro Castillo não vem mais à posse de Lula

Os lulopetistas fizeram campanha e apoiaram efusivamente a eleição do golpista Pedro Castillo em 2021 (sim, foi no ano passado), com direito à cartinha de Lula, vídeo de Gleisi e de...

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O companheiro Pedro Castillo não vem mais à posse de Lula
Foto: Flickr, Presidência do Peru

Os lulopetistas fizeram campanha e apoiaram efusivamente a eleição do golpista Pedro Castillo em 2021 (sim, foi no ano passado), com direito à cartinha de Lula, vídeo de Gleisi e de Celso Amorim e nota oficial do partido.

No seu perfil no Twitter, o PT Brasil declarou (26/07/2021): “Saudamos a posse do Presidente eleito do Peru, companheiro Pedro Castillo. A chegada ao governo de um representante popular, de esquerda e progressista traz esperança ao povo latino-americano. Sucesso, Presidente”. Antes disso, Lula, também no Twitter (10/06/2021), escreveu que “o resultado das urnas peruanas é simbólico e representa mais um avanço na luta popular em nossa querida América Latina”.

Celso Amorim, antes ainda (no início de junho de 2021), durante a campanha eleitoral, gravou um vídeo apoiando a candidatura do “companheiro Pedro Castillo”, considerando sua vitória importante “na luta contra o capitalismo desenfreado, neoliberal”. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, fez a mesma coisa empenhando o apoio do partido “à onda progressista que está no Peru… pela libertação total da América Latina”. Lula também entrou na campanha, assinando uma nota conclamando o voto em Castillo no segundo turno.

Já naquela época até as pedras de Machu Picchu sabiam que Pedro Castillo era um populista de esquerda sem qualquer compromisso com a democracia. Pois bem. Na tarde do dia 7 de dezembro de 2022, ele (Castillo) anunciou, ao vivo, um golpe de Estado no Peru. O seu governo de exceção começaria com as seguintes medidas (entre outras): 1 – Dissolver temporariamente o Congresso da República e instaurar um governo de emergência excepcional. 2 – Convocar eleições de um novo Congresso para elaborar uma nova Constituição em até nove meses. 3 – O Peru passa a ser governado por decretos-leis a partir de hoje até a nova Constituição. 4 – Toque de recolher passa a vigorar em todo o país das 22 horas até 4h do dia seguinte, a partir de hoje. 5 – Se declara em “reorganização”: o sistema de justiça, o judiciário, o Ministério Público, o Conselho Nacional de Justiça e o Tribunal Constitucional. Os que vivem no Brasil falando em golpe deveriam aprender com Pedro Castillo o que é um golpe de Estado.

Essa história de dizer que o que Castillo tentou fazer em 7 de dezembro no Peru é o que Bolsonaro está tentando há quatro anos fazer no Brasil, é factualmente correta, mas interpretativamente tendenciosa. O que Castillo fez é o que Chávez e Maduro fizeram. É o que Ortega fez. Não é só o populismo de extrema-direita que quer dar golpe. Na América Latina deste século há muito mais golpes (e ditaduras) de esquerda do que de direita.

Vejamos. Existiam 6 autocracias na América Latina e Caribe no ano passado (2021) segundo o V-Dem (Universidade de Gotemburgo): Cuba, Venezuela, Nicarágua, Honduras, Haiti e El Salvador. Quase todas de esquerda (com exceção de uma ou, talvez, duas). Bolsonaro é um autocrata de extrema-direita, mas o Brasil continua sendo uma democracia eleitoral. Se o golpe do populista de esquerda Pedro Castillo tivesse vingado, teríamos 7 ditaduras (sendo 5 ou 6 de esquerda).

A aventura desastrada de Castillo é pedagógica porque revela, em primeiro lugar, que existe, sim, populismo de esquerda e que ele não é democrático (no caso é francamente iliberal – e pode ser golpista). Em segundo lugar a tentativa de golpe de mão de Castillo revela que as bases do novo populismo de esquerda da América Latina são marxistas.

Basta ver, a título de exemplo, alguns trechos do primeiro capítulo do programa do partido Peru Libre pelo qual concorreu Pedro Castillo à presidência do Peru e que já era público desde o início de 2020. Portanto, quem apoiou a sua eleição sabia o que estava fazendo. “PERÚ LIBRE é uma organização de esquerda socialista que reafirma sua corrente ideológica, política e programática. Para ser de esquerda é preciso abraçar a teoria marxista e, sob sua luz, interpretar todos os fenômenos que ocorrem na sociedade mundial, continental e nacional… Portanto, chamar-se de esquerda quando não nos reconhecemos como marxistas, leninistas ou mariateguistas, é simplesmente agir em favor da direita com a mais alta hipocrisia…” E mais: “A história nos mostra que, desde Túpac Amaru II, a revolução peruana iniciada por ele, ainda não terminou”. E aí aponta algumas medidas necessárias “para realizar as aspirações do Partido” e “para que a maquinaria revolucionária possa marchar”. 

Bem… qualquer pessoa honesta verá que isso não tem nada a ver com democracia. É apenas um uso das eleições e do governo para implantar um projeto revolucionário da velha esquerda autocrática do século passado.

Certo jornalismo televisivo brasileiro, que virou chapa-branca, ao anunciar o golpe de Castillo, levantou a hipótese solerte de que ele, Pedro Castillo, por ser conservador em alguns costumes (o que ele é mesmo, por rudeza mental), se aproximava mais do bolsonarismo. Ora, isso não é nem defender o futuro governo Lula. É falsificação pura e simples. É inacreditável, mas temos agora um “Brasil Paralelo do B” instalado em grandes meios de comunicação.

A fake news, entretanto, não resiste aos fatos. Segundo o populista de esquerda Evo Morales (aliado do peito do PT), foi Pedro Castillo que sofreu um golpe da direita e do imperialismo norte-americano. Ele declarou no Twitter (08/12/2022):“O discurso de ódio e as ameaças de punição da direita peruana e de sua mídia contra o irmão Pedro Castillo colocam em risco a integridade dele e de sua família… O mundo verifica que sua declaração de vacância foi efeito de uma conspiração antidemocrática, política e midiática destinada a perseguir, assediar e atacar um governo popular legal e legitimamente eleito até que fosse deposto”. E algumas horas antes: “Como alertamos, a guerra híbrida da direita internacional perpetrou dois golpes contra os governos do povo nas últimas 48 horas. Começaram com o golpe judicial contra a irmã Cristina Kirchner e continuaram com a vacância congressual contra o irmão Pedro Castillo… Inimigos de direita do povo não aceitam governos antiimperialistas”.

López Obrador, o populista de esquerda que chefia o governo do México, logo ofereceu asilo diplomático a Castillo e declarou (La República, 08/12/2022): “Lamentamos muito o que aconteceu porque desde que ganhou, legalmente, legitimamente, Pedro Castillo foi vítima de assédio, de confronto; Seus adversários, principalmente as elites econômicas e políticas daquele país, não aceitavam o fato de ele governar”.

Gustavo Petro, outro populista de esquerda, recentemente eleito para presidir a Colômbia, também defendeu Castillo (08/12): “O direito de eleger e ser eleito e de ter um tribunal de julgamento independente foi violado”. E ainda: “Quando conheci Pedro Castillo… um golpe parlamentar já estava em andamento contra ele”.

No Brasil, Aloizio Mercadante, um dos coordenadores do governo de transição de Lula, durante coletiva de imprensa na própria tarde de quinta feira (07/12) classificou como “inaceitável” a destituição do presidente do Peru, Pedro Castillo. “Não sabemos se o primeiro movimento é só uma narrativa de golpe ou houve realmente uma tentativa [de golpe]. Qualquer que tenha sido a verdadeira história é inaceitável. É inaceitável mais uma vez quebrar a institucionalidade, a democracia, o Estado democrático de direito”.

Lula, depois, tentou consertar as coisas apoiando o governo da sucessora de Castillo baseado no fato de que o processo foi legal. Espera ter salvado formalmente as aparências, mas não poderá mais contar com a presença do campanheiro na sua posse.

* Augusto de Franco é escritor e palestrante.

 

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