O avião pousou; a conspiração continua no ar
O ataque ao voo da Flydubai mostra como acusações sem provas ganham milhões de visualizações e credencial jornalística.
Por Nira Broner Worcman*
O comandante estava ferido, o avião havia despencado e os passageiros tinham acabado de escapar de uma catástrofe. Mas, nas redes, outra história já começava a circular: Israel teria encenado o ataque.
Para quem difundia essa versão, o voo FZ1073 da Flydubai, de Dubai para Tel Aviv, em 30 de setembro, parecia menos um episódio a investigar do que uma oportunidade de confirmar uma convicção.
O influenciador americano Jackson Hinkle publicou no X uma lista de supostas coincidências envolvendo o momento eleitoral de Benjamin Netanyahu, uma alegada viagem do premiê aos Emirados Árabes Unidos e um alerta sobre possíveis ataques antes das eleições. A sequência insinuava uma operação planejada, embora nenhuma prova ligasse aqueles fatos a uma encenação. Em 6 de outubro, o post acumulava 2,4 milhões de visualizações.
O ex-parlamentar britânico George Galloway adotou caminho semelhante em seu programa MOATS. Questionou as imagens do comandante ensanguentado, levantando a possibilidade de uso de inteligência artificial, e tratou como suspeitas a entrada dos passageiros na cabine e a presença de pilotos adicionais.
Sugeriu que o episódio serviria para incriminar o Irã e justificar uma nova guerra. Em 6 de outubro, o trecho do monólogo somava 246 mil visualizações no YouTube. Galloway não negou categoricamente que algo tivesse ocorrido. Chegou a reconhecer que os danos na aeronave indicavam uma queda abrupta. Mas sua narrativa subordinava esses indícios à suspeita de um ataque encenado. A conclusão política ganhava espaço enquanto os fatos ainda eram apurados.
Suspeitas com credencial
Essas suspeitas ganharam credencial jornalística na versão em inglês da Roya News, portal ligado à emissora jordaniana Roya TV, uma das líderes em audiência na Jordânia. Em 1º de outubro, sob um título que sugeria uma encenação, o veículo reuniu argumentos de Galloway, da comentarista política americana Kim Iversen e de usuários das redes. A segurança da porta da cabine, a presença de pilotos adicionais e o momento político foram apresentados como razões para desconfiar do relato do ataque.
Nenhuma prova sustentava a hipótese de uma encenação israelense. Ainda assim, a matéria terminou elogiando a capacidade das audiências digitais de questionar versões oficiais. A especulação que cabia ao jornalismo verificar foi celebrada como se ela própria fosse uma apuração.
A Roya também difundiu essas suspeitas nas redes. Em 6 de outubro, sua publicação no Facebook acumulava 266 mil visualizações. No YouTube, outro vídeo que publicou repercutia a acusação iraniana de uma encenação israelense e registrava 31 mil visualizações.
Estatal iraniana
Em 1º de outubro, a Press TV, emissora estatal iraniana, foi além. Com base em uma fonte anônima, afirmou que Netanyahu planejara uma operação para culpar o Irã e arrastar os Estados Unidos para uma nova guerra. A emissora também divulgou a acusação no X, onde o post acumulava 19 mil visualizações em 6 de outubro.
Em 2 de outubro, a agência estatal turca Anadolu publicou a acusação da Press TV. Registrou que a emissora não identificara a fonte, nem apresentara provas. A ressalva não impediu que a alegação ganhasse circulação internacional. A reportagem foi republicada pelo Express Tribune, no Paquistão, pela agência ANTARA, na Indonésia, e pelo A News, na Turquia. O portal indonésio detikNews também a repercutiu, citando a Anadolu.
A acusação também chegou ao India Today, um dos principais grupos de mídia da Índia, e ao Bangladesh Pratidin, um dos jornais mais importantes de Bangladesh. O primeiro incluiu a contestação israelense; o segundo registrou a ausência de comprovação independente e apresentou o relato de Netanyahu sobre o ataque. Mas ambos destacaram nas manchetes a hipótese de uma encenação.
Embora os títulos a apresentassem como alegação, quem ficou apenas neles não encontrou os elementos que a contestavam ou evidenciavam sua fragilidade. As ressalvas estavam no corpo das matérias.
“Séria consideração”
Nos Estados Unidos, o Palestine Chronicle também repercutiu a acusação, citando a Press TV e a Anadolu, sem reproduzir a ressalva da agência turca sobre a ausência de provas. Na Itália, o jornal digital comunista Contropiano apresentou as suspeitas como merecedoras de “séria consideração”, sem oferecer provas de uma encenação. A mesma alegação anônima atravessou fronteiras e ganhou novos distribuidores, sem ganhar confirmação independente.
Enquanto essas versões circulavam, os esclarecimentos respondiam a objeções usadas para alimentar a conspiração. O comandante Smit Machchhar relatou que, mesmo ferido, conseguiu destrancar a cabine por dentro. Os passageiros não precisaram arrombar uma porta blindada. A companhia confirmou que tripulantes reservas estavam a bordo e ajudaram a pousar o avião.
Em 3 de outubro, o procurador-geral dos Emirados informou que a investigação identificara uma tentativa de ato terrorista: o copiloto atacara o comandante com um machado de emergência e tentara assumir os controles.
Em 5 de outubro, a Reuters acrescentou, citando dois funcionários israelenses com conhecimento da investigação, que o copiloto teria declarado aos interrogadores emiradenses que planejara o ataque antes de ser contratado pela Flydubai e procurara uma companhia que voasse para Tel Aviv.
Segundo o Times of Israel, que citou relatos sobre os interrogatórios, ele teria dito aos investigadores que pretendia seguir o voo normalmente, obter autorização de pouso e então lançar a aeronave contra um prédio ou outro avião no aeroporto Ben Gurion.
O jornal também repercutiu uma reportagem do Corriere della Sera, baseada em informações da inteligência israelense, segundo a qual o alvo seria um arranha-céu em Tel Aviv: um ataque nos moldes do 11 de Setembro. As autoridades emiradenses ainda não divulgaram as conclusões finais da investigação.
Há também relatos, citados pela BBC, de que ele havia sido afastado das funções de voo na Oman Air e transferido para um trabalho administrativo por suspeitas de extremismo. Como esse histórico foi verificado e como ele foi autorizado a operar o voo para Israel são perguntas concretas e urgentes, que exigem apuração.
Imprensa
Influenciadores e comentaristas respondem pelas acusações que difundem. À imprensa cabe verificá-las antes de lhes dar a autoridade de uma notícia. Investigar falhas de segurança exige provas. Acusar Israel de encenar o ataque também. A incerteza sobre detalhes não é evidência de encenação, assim como a possibilidade de um governante explorar politicamente um episódio não demonstra que o tenha fabricado.
Em consulta de 6 de outubro, a matéria da Roya que reunia as suspeitas continuava disponível, com a última atualização indicada em 1º de outubro. O veículo publicou informações posteriores em outras páginas. Mas quem recebeu a primeira versão pode nunca encontrar os esclarecimentos.
As publicações nas redes também permanecem disponíveis, sem garantia de que seus espectadores recebam as informações posteriores. Pior: a cada dia podem ser vistas por novas pessoas.
Esse é o mecanismo que importa. Uma suspeita nasce nas redes, entra em um veículo jornalístico e retorna às redes com um selo de credibilidade: saiu na imprensa. A repetição faz parecer que existem várias confirmações, quando pode haver apenas uma alegação circulando entre diferentes distribuidores.
A imprensa cobra das plataformas responsabilidade pela desinformação. Precisa aplicar a mesma exigência a si própria, dando às correções e aos esclarecimentos destaque e distribuição comparáveis aos da versão inicial. Quando o jornalismo dá autoridade a uma acusação sem provas, ele trai a confiança que justifica sua existência.
O avião pousou. A conspiração continua no ar.
*Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora da edição hors commerce de ‘Enxugando Gelo’ (2025), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.
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