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Lula e a lenda urbana do monstro mercado

Ao mesmo tempo, o governo Lula tem feito avanços preocupantes sobre empresas privadas nas quais tem participação

Madeleine Lacsko

Em suas últimas entrevistas, o presidente Lula tem insistido na lenda urbana do monstro mercado. O mercado é tratado como se fosse uma pessoa, com sentimentos. Se questiona, por exemplo, se o mercado tem pena de algo, sente algo.

Ao mesmo tempo, o governo tem feito avanços preocupantes sobre empresas privadas nas quais tem participação. Começou com a indicação de dois ministros, duas pessoas do primeiro escalão do governo para o conselho de administração da siderúrgica Tupy. O BNDES tem participação na empresa e o direito de indicar.

Movimento semelhante, em que a participação do governo indica gente do primeiro escalão para o conselho de administração, ocorreu com a Companhia Distribuidora de Gás do Rio de Janeiro. (Falo em mais detalhes do caso na coluna “iFood e Mercado Livre vão virar os novos inimigos nacionais?”).

Agora empresas maiores estão na mira, Petrobrás, Vale e Braskem. Na Vale, se falava da indicação de Guido Mantega para CEO. Houve desistência, mas um conselheiro da empresa, Luciano Penido, se afastou do conselho dizendo que havia interferência indevida na indicação do CEO.

Nesses casos não foram tomadas – ainda – medidas efetivas. Nenhuma indicação foi feita. O valor de mercado, no entanto, já sofre abalos. Tomando como exemplo os casos anteriores, investidores estimam quais serão os efeitos na gestão dessas empresas.

Sobre a Petrobras, Lula questionou a distribuição de dividendos. Apelou ao emocional perguntando se o mercado não tem pena do povo, não pensa nos investimentos.

É um discurso que faz efeito apenas no cercadinho de Lula. Ali se acredita que o mercado é o dragão do mal e Lula é o guerreiro do povo. As declarações empolgam muito esse público, que não é majoritário.

O movimento que agrada o cercadinho tende a sair pela culatra. O presidente tem diante de si um enorme desafio na área da economia. O brasileiro já diz em pesquisas que sente a alta dos preços, principalmente no supermercado. É um dado que tende a cair na conta do presidente da vez, seja ou não culpa dele. Somamos à equação a promessa folclórica de picanha feita durante a campanha.

Avanços governamentais diminuem a governança de empresas privadas. É um ponto que orienta a decisão de investidores, principalmente internacionais mas também nacionais. Pode haver um efeito de contágio para todas as empresas, mesmo as que não estão na mira direta do governo.

É possível começar a questionar se os princípios da governança corporativa são ou não válidos no Brasil, o que diminui a intenção de investimento nas empresas brasileiras porque gera um cenário de incertezas sobre as regras.

Esse movimento é ruim para a economia, que Lula precisa melhorar. Num regime democrático como o nosso, o presidente precisa da aprovação da população. Nesse sentido, as últimas ações do governo são danosas para ele. Deve haver algum plano nessa linha de atuação. Somente as cenas do próximos capítulos dirão qual é ele.

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