Gustavo Nogy na Crusoé: Fracassei, mas fracassei do meu jeito
Explicaram direito mas entendi torto. Recomendaram objetividade e fui subjetivo. Definiram critérios, inventei metáforas
Algumas edições atrás, pediram que eu escrevesse o texto de capa da Crusoé. Assunto? “Como lidar com Donald Trump”
Explicaram direitinho. Recomendaram objetividade. Definiram critérios.
Aceitei o desafio, consultei reportagens, conferi informações, escrevi duas mil palavras – fracassei gloriosamente.
Explicaram direito mas entendi torto. Recomendaram objetividade e fui subjetivo. Definiram critérios, inventei metáforas.
Fizeram outra capa e o texto foi publicado noutra seção.
Talvez o leitor imagine que estou prestes a confessar diagnóstico de transtorno do déficit de atenção, mas não é o caso.
O mal de que sofro ainda não consta nas páginas do DSM: adicção em new journalism, “novo jornalismo” ou “jornalismo literário”. Li demais o jornalismo narrativo e de menos o jornalismo factual.
O “movimento” surgiu nos EUA, entre os anos 60 e 70. A proposta era emprestar técnicas narrativas da ficção e usá-las na reportagem, nos perfis, nos artigos, nas entrevistas.
Ouvir e contar histórias reais como se fossem, tivessem sido, ficcionais. Se preciso fosse, completar os fatos com a imaginação sobre os fatos.
Ninguém inventou o negócio sozinho, mas ele começa a aparecer com Tom Wolfe (O Teste do Ácido do Refresco Elétrico e Radical Chique). Juntaram-se a ele Gay Talese (O Reino e o Poder; Fama & Anonimato), Truman Capote (A sangue frio), Joan Didion (O álbum branco), Hunter S. Thompson (Rum: Diário de um Jornalista Bêbado; Medo e Delírio em Las Vegas) e grande elenco.
De certa maneira, era uma volta sofisticada e pós-qualquer-coisa às origens da segunda profissão mais antiga do mundo, que tinha muito de ficcional e mentirosa, com e sem aspas, antes de se profissionalizar (e se pasteurizar) ao longo do século 20.
Como o rock, que já morreu tantas vezes, obituários dão conta de que o jornalismo literário já não tem razão de ser, nem lugar para existir, no chatíssimo mundo do fact-checking…
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