Entebbe e o dia em que nasci
Há uma dimensão do resgate dos israelenses e judeus sequestrados para Uganda em 1976 que a memória coletiva apagou
Por Nira Broner Worcman*
Nasci no dia 4 de julho. Para muitos, a data remete ao Dia da Independência dos Estados Unidos.
Para mim, ao longo do tempo, passou a carregar outro peso histórico: foi nesse mesmo dia, em 1976, que os reféns resgatados na Operação Entebbe pousaram em segurança em Israel, enquanto os americanos celebravam seu bicentenário. Dois países, no mesmo dia, cada um à sua maneira marcando a liberdade. Cinquenta anos depois, a data ainda tem algo a ensinar.
Em junho de 1976, terroristas da FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina) e do grupo alemão de extrema-esquerda Revolutionäre Zellen sequestraram o voo 139 da Air France — que partira de Tel Aviv com destino a Paris, transportando 246 passageiros, a maioria israelenses e judeus — e o desviaram para o Aeroporto de Entebbe, em Uganda, onde o ditador Idi Amin recebeu e apoiou os sequestradores.
Já em solo ugandense, os sequestradores explicitaram seus critérios: libertaram os passageiros não judeus e retiveram apenas os israelenses e judeus. Israel decidiu agir.
Resgate
Uma força de elite voou mais de quatro mil quilômetros até Entebbe para resgatá-los e eliminar os sequestradores. Ao todo, 102 pessoas foram salvas. Três reféns morreram durante a operação, e uma quarta, hospitalizada em Kampala, foi posteriormente assassinada por ordem de Idi Amin.
O único militar israelense morto foi Yonatan Netanyahu, irmão de Benjamin Netanyahu e comandante da operação, cuja liderança tornou-se símbolo de comprometimento absoluto diante do risco extremo.
O que Entebbe estabeleceu não foi apenas uma vitória operacional, mas uma declaração política e moral: a vida de cidadãos não pode ser relativizada pela distância ou pela complexidade das circunstâncias. Em situações extremas, um Estado se define pela forma como age e pelo que está disposto a arriscar para não se omitir.
Memória coletiva
Mas há uma dimensão que a memória coletiva apagou. Entebbe não foi travada apenas no aeroporto ugandense. Cinco dias após a operação, o Conselho de Segurança da ONU reuniu-se para julgar Israel. Uganda, apoiada por nações africanas e pelo Movimento dos Não-Alinhados, apresentou acusação de agressão.
O secretário-geral Kurt Waldheim declarou a operação uma violação grave da soberania de um Estado-membro. A União Soviética e a China condenaram o que chamaram de “agressão sionista”. Por quatro dias, a batalha deslocou-se da pista para os microfones e a disputa pela narrativa foi tão intensa quanto o combate que a precedeu.
Israel venceu também essa frente. Os países africanos retiraram a resolução de condenação. Como declarou o então embaixador Chaim Herzog, pai do atual presidente de Israel, Isaac Herzog, perante o Conselho, “o Conselho de Segurança foi convocado para condenar Israel. Israel não foi condenado e, por isso, foi vindicado”.
Mas a lição permaneceu: operações militares bem-sucedidas não encerram o conflito. Elas abrem outro.
Brasil
Esse padrão — ação militar seguida de uma batalha internacional pelo seu significado — não terminou em 1976. Desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, ele retornou com intensidade sem precedentes. E o Brasil, desta vez, esteve no centro do palco.
Em outubro de 2023, o Brasil presidia o Conselho de Segurança da ONU exatamente quando o conflito eclodiu. Em poucos dias, o Conselho voltou a tornar-se o palco onde se discutiam os limites e a legitimidade da resposta israelense. Era o mesmo Conselho, o mesmo roteiro, meio século depois. O papel dos atores mudou. A lógica, não.
A resposta israelense, incluindo operações de resgate de reféns em Gaza, desenvolveu-se em meio a uma guerra informacional implacável. O campo de batalha contemporâneo não é apenas físico; é também narrativo, veloz e global.
Informações imprecisas, enquadramentos seletivos e omissões editoriais deixaram de ser apenas efeitos colaterais da guerra. Tornaram-se instrumentos dela com consequências concretas sobre como os conflitos são compreendidos e julgados.
Antissemitismo
Desde o 7 de outubro, ataques antissemitas se multiplicaram na Europa, na América do Norte e na América Latina: sinagogas vandalizadas, estudantes judeus perseguidos em universidades, pessoas atacadas e assassinadas nas ruas por serem judias. A distorção narrativa não fica confinada à tela, e tem consequências concretas.
Enfrentá-la exige a mesma qualidade que Entebbe demandou de seus protagonistas: a audácia de agir quando o preço da inação já se tornou evidente.
Neste 4 de julho, o que a coincidência de datas me oferece não é nostalgia, mas referência: Entebbe como lembrança de que coragem não é atributo reservado a circunstâncias extraordinárias, mas uma decisão tomada por quem conhece o preço de não agir.
*Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora da edição hors commerce de “Enxugando Gelo” (2025), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.
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