Bruno Soller na Crusoé: Chile tem racha na direita
Com dificuldades para o enfrentamento binário, a esquerda chilena prefere enfrentar o radicalismo no segundo turno a moderação
Desde a assunção de Patrício Aylwin, em 1990, encerrando um período de dezessete anos de uma das ditaduras mais sangrentas da América do Sul, o Chile tem em seu DNA político a marca do equilíbrio.
Eleito para a transição democrática, o ex-presidente comandou o processo condenando os abusos que o militarismo promoveu no país, execrando os excessos contra os direitos humanos e instaurando diversas comissões para apurar todo o ultrajante sistema de coação de liberdade imposto pelo ditador Augusto Pinochet.
Todavia, nunca fez palco para o oposto imediato, diferenciando-se dos saudosistas de Salvador Allende, reconhecendo que o governo socialista havia sido extremamente débil, desorganizado e prejudicial para a população.
Essa linha adotada pelo democrata cristão moldou o debate político chileno desde então.
Com grande alternância de poder, entre direita e esquerda, o país experimentou cinco presidentes ao longo de sua jovem jornada democrática.
Eduardo Frei com uma postura multilateral nas relações exteriores foi fundamental para estabelecer uma base de crescimento econômico para o país nos anos 90.
Ricardo Lagos, ex-ministro de Aylwin e Frei, deu sequência ao estilo econômico de seus antecessores e conduziu reformas sociais marcantes como a educacional e do sistema público de saúde.
Com solvência, estabilidade e avanços nos direitos, o país se permitiu a um revezamento por 16 anos entre dois políticos representantes genuínos da direita e esquerda.
O curso Bachelet-Piñera-Bachelet-Piñera foi interrompido com a vitória do jovem presidente Gabriel Boric, que retomou a condução do La Moneda para a esquerda, mas com uma postura muito diferente de seus pares latino-americanos, adotando um discurso de condenação à ditadura venezuelana, de Maduro.
Se havia algum medo de que o presidente mais jovem da história do país fosse adotar uma linha radical à esquerda, devido a seu passado de líder estudantil, novamente o gene do comedimento se impôs e o respeito à democracia vigorou.
Se, do ponto de vista do equilíbrio político e democrático, Boric ganha uma louvável nota, seu governo no que tange às entregas é razoavelmente frustrante.
Com um início de gestão muito tumultuado, parece que a inexperiência administrativa jogou contra o socialista, que enfrentou um Congresso muito desfavorável e uma grande derrota na Constituinte.
Alguns avanços nos direitos sociais dos aposentados e pensionistas, com o novo seguro social, aumentaram um pouco de sua popularidade…
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