Boy George leva sua solidariedade ao palco em Israel
O boicote cultural fracassou em manter Boy George longe. A pressão teve um custo pessoal, como ele relatou, mas não determinou onde se apresentaria
Por Nira Broner Worcman•
Boy George (ao centro na foto) fez carreira desafiando expectativas sobre como um astro da música deveria se vestir e se comportar. Em 31 de outubro, chegou a Israel para dois shows em Tel Aviv, contrariando outra convenção: a de um meio cultural em que se apresentar para israelenses se tornou motivo de condenação.
Para a maioria dos cantores, desembarcar para um show seria uma simples rotina. Para George, a viagem levanta uma pergunta sobre a indústria que celebra sua individualidade: quanto ela valoriza o não conformismo quando ele questiona suas próprias convicções?
É mais fácil aplaudir a rebeldia retrospectivamente, depois que as convenções desafiadas perderam sua autoridade. O desconforto aparece quando o artista contesta seus contemporâneos. Uma indústria pode celebrar a transgressão de ontem enquanto exige conformidade hoje.
We Will Dance Again
George leva We Will Dance Again ao país cujas vítimas de 7 de outubro inspiraram a canção. O show de 4 de novembro teve ingressos esgotados. Uma segunda apresentação, no dia 7, será dedicada à comunidade do festival Nova e às famílias. Depois da controvérsia em torno de seu apoio a Israel, sua resposta agora inclui uma viagem e duas noites no palco.
Na chegada, contou que conversas com amigos judeus na Grã-Bretanha, alguns conhecidos desde seus 15 anos, o levaram a se manifestar. O medo e a insegurança deles o inquietavam. “Senti que precisava dizer alguma coisa”, afirmou. A questão havia se tornado pessoal: pessoas que conhecia e amava estavam com medo por serem judias.
Em 2 de novembro, na residência do presidente israelense Isaac Herzog, em Jerusalém, George disse que a experiência lhe custou amizades. Alguns amigos simplesmente se calaram, sem sequer se despedir.
Ainda assim, afirmou não se arrepender. Herzog agradeceu seu apoio e condenou a discriminação contra israelenses e judeus na cultura, na arte e na música, áreas que deveriam aproximar pessoas.
Obstáculos
A preparação da viagem teve obstáculos.
Em entrevista ao Canal 12, em 10 de outubro, George disse procurar músicos “corajosos o suficiente para ir”. Em 22 de outubro, a assessoria responsável pela visita informou que os músicos viajariam com ele. Ficava, porém, a pergunta: por que tocar em Israel deveria exigir coragem?
As objeções anteriores de integrantes de sua banda diziam respeito à execução da própria música.
Em outubro, ele falava da viagem: perguntado se ouvira pessoas dizerem que aceitariam caso o show fosse em outro país, respondeu que sim. Isso não explica todas as recusas, e ninguém é obrigado a aceitar um trabalho. Mas coloca o destino da apresentação no centro da discussão.
Discordar das posições de um cantor deveria levar à oposição à sua presença diante de um público israelense?
O boicote cultural transforma o endereço de um show em declaração de alinhamento político. Mas se apresentar num país não equivale a endossar seu governo.
Tampouco assistir a um show exige justificativa política.
Israelenses que apoiam Netanyahu têm tanto direito de ouvir um artista internacional quanto aqueles que o rejeitam. Ninguém deveria passar por um teste ideológico na entrada.
Boicote fracassado
Neste caso, o boicote cultural fracassou em manter Boy George longe. A pressão teve um custo pessoal, como ele relatou, mas não determinou onde se apresentaria. George chegou, e o público israelense se prepara para recebê-lo.
A segunda apresentação dá um significado particular à escolha. O Hamas atacou o Nova quando pessoas estavam reunidas para ouvir música e dançar.
Organizadores e apoiadores doaram 1.500 ingressos para sobreviventes e famílias enlutadas. George também tem uma visita prevista ao local do massacre, em 3 de novembro, com Omer Shem Tov, que sobreviveu ao ataque e passou 505 dias em cativeiro do Hamas.
Por que a pressão para isolar Israel deve alcançar também essa comunidade? Que objetivo se cumpre ao tentar impedir que um artista cante para sobreviventes e famílias das vítimas?
Solidariedade
George manifestou pesar pelas vidas inocentes perdidas dos dois lados da guerra. Seus críticos não precisam concordar com sua avaliação para reconhecer sua liberdade de se apresentar.
A solidariedade aos judeus e o encontro com o público israelense não deveriam depender dessa concordância.
No Nova, o Hamas transformou uma celebração musical em cenário de assassinato em massa. George se prepara para cantar diante de integrantes daquela mesma comunidade.
Sua visita não pode desfazer as perdas, mas oferece algo que o boicote impediria: um reencontro em torno da música, com um artista cuja solidariedade começou numa canção e agora se traduz em presença.
•Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse e autora de ‘Enxugando Gelo’ (2025), livro de edição não comercial sobre a cobertura da imprensa a respeito de Israel e do povo judeu.
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