A reação que veio cedo demais
No terceiro aniversário do 7 de Outubro, uma cronologia merece ser lembrada: Israel já era responsabilizado enquanto o massacre ainda estava em curso
Por Nira Broner Worcman*
Às 12h50 de 7 de outubro de 2023, enquanto o ataque do Hamas ainda estava em curso em Israel, um organizador telefonou para a Polícia Metropolitana de Londres para informar que uma grande manifestação pró-Palestina seria realizada no sábado seguinte. A dimensão do massacre ainda era desconhecida, e um lado já havia sido escolhido.
Cinco minutos depois, às 12h55, o Community Security Trust (CST), organização que monitora o antissemitismo no Reino Unido, registrou o primeiro incidente antissemita ligado ao ataque: um carro com uma bandeira palestina passou diante de uma sinagoga em Hertfordshire enquanto judeus celebravam Simchat Torá. Até o fim daquele sábado, haviam sido registrados 31 incidentes antissemitas no país, contra uma média anterior de cinco por dia.
No terceiro aniversário do massacre, essa sequência expõe um problema em uma das explicações mais comuns para o que se seguiu ao 7 de Outubro: a de que a resposta militar israelense em Gaza provocou a onda de hostilidade contra Israel e, em sua expressão mais extrema, o avanço global do antissemitismo. Israel iniciou ataques aéreos naquele mesmo dia.
Enquanto o massacre estava em curso
Mas a campanha prolongada, a grande ofensiva terrestre e a devastação posteriormente invocada para explicar essa reação ainda estavam por vir. Esses acontecimentos posteriores não explicam um julgamento que já era proferido enquanto o massacre estava em curso.
Naquele mesmo sábado, enquanto Israel ainda contava seus mortos, uma declaração assinada por 34 grupos estudantis de Harvard já atribuía ao “regime israelense inteira responsabilidade por toda a violência em curso”.
Cerca de 1.200 pessoas foram mortas naquele dia e 251 foram sequestradas. No dia seguinte, centenas se reuniram na Times Square, em Nova York, onde os gritos incluíam “A resistência é justificada” e “Globalizem a intifada”.
Segundo relatos, alguns manifestantes também gritavam “700”, em aparente referência ao número de mortos em Israel divulgado naquele momento. No Reino Unido, o CST registrou 416 incidentes antissemitas na primeira semana após o ataque, mais do que em qualquer semana subsequente, inclusive depois do início da grande ofensiva terrestre israelense, em 27 de outubro.
Precipitação
Nada disso significa que a solidariedade aos palestinos seja inerentemente antissemita. Confundir as duas coisas seria um erro grave. Mas solidariedade aos palestinos também não é o mesmo que justificar o que acabara de acontecer.
A precipitação em julgar continuou. Em 17 de outubro, veio outro teste: uma explosão na área do hospital Al-Ahli, em Gaza. Autoridades de Gaza, governada pelo Hamas, responsabilizaram Israel e anunciaram que cerca de 500 pessoas haviam sido mortas. Veículos de imprensa de todo o mundo divulgaram a acusação antes que ela pudesse ser verificada.
Uma reunião de cúpula entre o presidente b e líderes árabes foi cancelada. Nos dias seguintes, análises independentes e agências de inteligência concluíram que as evidências apontavam para um foguete disparado de Gaza, embora nunca tenha sido estabelecido de forma conclusiva quem o lançou.
O New York Times reconheceu posteriormente, em uma nota dos editores, que sua cobertura inicial havia se apoiado excessivamente em alegações do Hamas que não podiam ser verificadas de maneira independente. A manchete percorreu o mundo. A revisão daquela versão não teve o mesmo alcance.
“Sabíamos que haveria uma reação violenta”
Há outra parte dessa história, mais difícil de descartar. Documentos recuperados em Gaza mostram que, mais de um ano antes do ataque, Yahya Sinwar já considerava cenários que envolviam uma ofensiva de grande escala e uma resposta israelense extrema.
“Sabíamos que haveria uma reação violenta”, disse posteriormente ao Washington Post Basem Naim, integrante da liderança política do Hamas. Khalil al-Hayya foi mais explícito.
O objetivo, afirmou, era “mudar toda a equação”. “O que poderia mudar a equação seria um grande ato e, sem dúvida, sabia-se que a reação a esse grande ato seria grande.”
Como poderia ser diferente? Que país, depois de ter cerca de 1.200 pessoas mortas e 251 sequestradas em um único dia, não responderia militarmente ao grupo responsável?
A questão tornou-se ainda mais incontornável quando Ghazi Hamad, outro integrante da liderança política do Hamas, disse que o 7 de Outubro havia sido apenas “a primeira vez”: haveria uma segunda, uma terceira e uma quarta.
Estrutura ideológica
O Hamas não apenas esperava uma reação israelense. Documentos anteriores ao ataque e declarações posteriores de seus dirigentes indicam que o grupo entrou no 7 de Outubro sabendo que uma resposta de enorme escala era uma consequência previsível.
Isso nos leva de volta à cronologia. A mobilização contra Israel começou cedo demais para ser explicada pela dimensão que sua resposta militar viria a assumir.
Israel já era responsabilizado enquanto ainda contava seus mortos. Os incidentes antissemitas já disparavam muito antes do início de sua grande ofensiva terrestre em Gaza.
Nada disso prova que o Hamas tenha organizado as manifestações no exterior. Não há evidências suficientes para sustentar essa afirmação. A explicação talvez seja mais perturbadora justamente porque não exige conspiração alguma.
A estrutura ideológica já existia, dos slogans conhecidos e das redes universitárias a uma narrativa que apresentava Israel como potência colonial e Estado de apartheid. Nesse esquema, os papéis já estavam distribuídos: Israel era o opressor, e os palestinos, os oprimidos.
Tudo o que acontecesse a seguir seria interpretado por essa lente, mesmo quando o primeiro acontecimento era um massacre de israelenses. O 7 de Outubro não precisou criar uma narrativa. Encontrou uma pronta à sua espera.
O que veio depois, a destruição em Gaza, milhares de mortes e uma guerra prolongada, claramente alimentou e estendeu a reação. Isso precisa ser reconhecido. Mas o que aconteceu depois não explica o que veio antes.
Para compreender a guerra de narrativas, é preciso voltar às 12h50 daquele sábado.
O massacre ainda estava em curso, e a condenação já havia começado. Israel ainda contava seus mortos e tentava expulsar os homens armados do Hamas de seu território, mas o julgamento já havia sido proferido. A guerra mal começara, mas a narrativa já tinha seu vencedor.
*Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora de ‘Enxugando Gelo’, livro hors commerce sobre desinformação a respeito de Israel e do povo judeu.
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