Violência, roubos e sequestros por criptomoedas
O universo das criptomoedas, com suas transações digitais e flutuações voláteis no ambiente virtual, "conhece" a violência do mundo físico
Com o aumento expressivo do valor de ativos digitais e a lenta evolução da regulamentação do setor, criminosos estão recorrendo cada vez mais à violência – agressões, sequestros e tortura – para roubar criptomoedas.
Essa transição do digital para o real é um fenômeno considerado relativamente recente, conforme aponta John Griffin, professor de finanças da Universidade do Texas, que pesquisa crimes financeiros.
Relatos de violência e ataques físicos
Diversos incidentes recentes ilustram essa nova e preocupante “tendência”.
Nos Estados Unidos, um caso em Nova York envolveu a prisão de dois investidores acusados de sequestro e agressão após um homem alegar ter sido torturado por semanas para entregar a senha de sua carteira de bitcoins. Em Connecticut, um casal foi rendido, agredido e amarrado em uma van, numa ação que, segundo a polícia, fazia parte de uma tentativa de extorquir o filho, suspeito de roubar uma grande quantia em bitcoin.
A Justiça americana também formalizou acusações contra um grupo de 13 pessoas por um esquema complexo que combinava invasões digitais para identificar alvos, com invasões a domicílios para roubar mais de US$ 260 milhões em criptomoedas. Alguns suspeitos invadiam sites e servidores em busca de dados de criptoativos, enquanto outros invadiam residências visando carteiras de hardware – dispositivos físicos que armazenam chaves de acesso às moedas digitais.
Na França, a preocupação cresce com casos de sequestros direcionados a donos de criptomoedas ou seus familiares. Um episódio chocante envolveu o sequestro do pai de um empresário do setor, com criminosos enviando vídeos de mutilação e exigindo resgate milionário em euros. Em outra tentativa frustrada, a filha do CEO da plataforma Paymium foi alvo de uma tentativa de sequestro em Paris. David Balland, cofundador da Ledger, empresa francesa de carteiras digitais, e sua esposa, também foram vítimas de sequestro em sua residência.
Fatores impulsionando a violência cripto
Especialistas e autoridades ligam o aumento desses crimes violentos à combinação de somas milionárias envolvidas no mercado cripto e à ainda insuficiente regulamentação, que permite transações com baixo nível de identificação.
Para Griffin, essa violência pode ser vista como um “reflexo natural da ousadia que caracteriza o universo cripto”, onde atos inaceitáveis em outros contextos parecem integrar um “jogo”. Relatórios recentes do FBI nos EUA confirmam o impacto financeiro, registrando perdas superiores a US$ 6,5 bilhões em casos envolvendo criptomoedas em 2024, liderando o ranking de prejuízos em crimes cibernéticos.
A empresa de rastreamento TRM Labs sugere que a escalada da violência pode estar relacionada à percepção de que crimes ligados a criptoativos são difíceis de rastrear. Além disso, a vasta quantidade de informações pessoais disponíveis online e a ostentação de riqueza nas redes sociais tornam os donos de criptomoedas alvos mais fáceis para criminosos.
Phil Ariss, da TRM Labs, observa que grupos criminosos com histórico de violência estão migrando para o universo cripto, encarando carteiras digitais como mais um ativo valioso a ser roubado, assim como relógios de luxo. Essa realidade exige uma atualização na forma como se percebe a ameaça de assaltos e violências físicas.
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