Uma emblemática fábrica de calçados fecha para sempre, trazendo o fim de uma era e deixando de pagar trabalhadores
Fábrica de calçados fecha e deixa dívidas com funcionários
A Gomas Gaspar, fábrica de solados de borracha do bairro San Vicente, em Córdoba, encerrou as atividades em abril de 2026, depois de mais de três décadas abastecendo a indústria calçadista argentina. O fechamento, por si só, já seria um golpe duro para os trabalhadores. Mas o que veio depois foi pior: o dono da empresa desapareceu sem pagar salários atrasados, décimo terceiro e indenizações, deixando cerca de 40 pessoas completamente desamparadas.
O que era a Gomas Gaspar e o que ela produzia?
A empresa se especializava na fabricação de solados e bases de borracha para calçados urbanos, esportivos e sociais. Por décadas, foi uma das principais fornecedoras de marcas nacionais argentinas, posicionada como um elo essencial da cadeia produtiva do setor. No bairro San Vicente, em Córdoba, era considerada um dos principais empregadores locais e chegou a ter funcionários com quase três décadas de casa.
O primeiro sinal público de problema veio no fim de 2025, quando a empresa não pagou o décimo terceiro salário do segundo semestre. A partir daí, os trabalhadores foram mandados para férias forçadas de um mês. Quando voltaram, os salários ainda não tinham sido quitados. Os demitidos vieram em seguida, um a um, por telegrama.

O que aconteceu com os trabalhadores depois do fechamento?
O mais revoltante para quem estava lá foi o que aconteceu entre o anúncio dos demitidos e o fechamento definitivo. Segundo Arturo Pitkard, delegado regional do Sindicato Obrero del Caucho, o dono da empresa pediu que os demitidos voltassem a trabalhar de forma informal para “ajudar a levantar a fábrica”. Muitos aceitaram por lealdade, especialmente os mais antigos.
A promessa de pagamento nunca se cumpriu. O dono da empresa, identificado como o engenheiro químico Rodolfo Polero, simplesmente desapareceu. “Ele deixou seus funcionários sozinhos, pessoas com família, e não se importou com nada. A empresa está em processo de falência e ele começou a desmontar tudo”, disse Pitkard à imprensa argentina. Hoje, segundo os trabalhadores, não há ninguém para atender reclamações na empresa.
Veja o que cada trabalhador ainda espera receber:
Quem são as pessoas por trás dos números?
Fabián Córdoba trabalhou 18 anos na fábrica. Sua esposa perdeu a mobilidade há seis anos e precisa de medicamentos que custam 250 mil pesos por mês. Sem salário e sem indenização, ele depende da ajuda da família para cobrir os remédios. “Não posso pedir mais para minha mãe e meus irmãos”, disse em entrevista ao Infobae.
Carlos, com 13 anos de empresa, tem quatro filhos, incluindo um bebê de um ano e meio e outro a caminho. “Me parece muito injusto o que o dono nos fez. Fechou a porta e disse: se virem. Ele se acha impune”, relatou. Esses dois casos são apenas uma amostra dos 40 trabalhadores que hoje fazem protesto na porta do galpão fechado, esperando uma resposta que ainda não veio.
O que explica o fechamento de tantas fábricas no setor de calçados?
O caso da Gomas Gaspar não é isolado. O INDEC, instituto de estatísticas da Argentina, registrou queda de 8,7% na produção industrial em fevereiro de 2026 em comparação ao mesmo mês do ano anterior. O setor calçadista está entre os mais atingidos, junto com a construção.
Duas forças têm pressionado as fábricas ao mesmo tempo. De um lado, a queda no consumo interno, com as famílias comprando menos por causa da inflação e da perda de poder aquisitivo. Do outro, a abertura comercial que facilitou a entrada de produtos importados mais baratos, especialmente da Ásia, tornando a concorrência muito mais difícil para quem produz localmente com custos em pesos.
Outros nomes conhecidos do setor também estão em crise?
Sim, e alguns são marcas com décadas de história. A John Foos, marca de tênis criada nos anos 1980 que chegou a ter cerca de 400 funcionários, anunciou o encerramento da produção em sua planta de Beccar, no partido de San Isidro, e passou a importar produtos prontos da Ásia. A Viamo formalizou pedido de concordata preventiva após deterioração financeira e conflitos trabalhistas.
O Grupo Dass, que fabricava tênis para marcas internacionais como Nike, Adidas, Umbro, Fila e Asics, demitiu 43 funcionários e enfrenta dificuldades em sua única planta operacional, em Misiones, após fechar a unidade de Coronel Suárez em janeiro de 2025. O setor está claramente em colapso.
| Empresa | Situação em 2026 | Impacto |
|---|---|---|
| Gomas GasparCórdoba, mais de 30 anos | Fechamento definitivo em abril de 2026 | 40 demitidos sem receber |
| John FoosBeccar, San Isidro, desde os anos 1980 | Encerrou produção local; passou a importar da Ásia | Fim da fabricação nacional |
| ViamoMarca nacional de calçados | Pedido de concordata preventiva | Futuro incerto |
| Grupo DassFabricante para Nike, Adidas e outras | 43 demitidos; planta de Misiones com dificuldades | Produção reduzida |
O que esse fechamento revela sobre a indústria argentina?
A indústria manufatureira argentina acumula quedas consecutivas há meses. O fechamento da Gomas Gaspar é ao mesmo tempo um caso específico, com falhas claras de gestão e responsabilidade do dono, e um sintoma de um problema maior que nenhuma empresa consegue resolver sozinha.
Para os 40 trabalhadores que hoje protestam na porta do galpão fechado em San Vicente, a discussão econômica fica em segundo plano. O que eles querem é o que lhes é devido por lei: o salário do mês trabalhado, o décimo terceiro, as férias e a indenização. São direitos que deveriam ser garantidos independentemente de qualquer contexto. Por enquanto, não há ninguém do outro lado para responder.
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