Um movimento separatista no Canadá?
Grupo da região de Alberta coleta mais de 300 mil assinaturas, mas processo enfrenta contestação judicial de povos indígenas
Um movimento separatista da província canadense de Alberta entregou na segunda-feira, 4, uma petição formal para a realização de um plebiscito. O grupo Stay Free Alberta afirma ter reunido mais de 300 mil assinaturas — número superior ao mínimo de 178 mil exigido por lei —, abrindo a possibilidade de que os habitantes da região votem ainda em outubro deste sobre o direito de deixar de ser canadenses.
A lógica do movimento
A insatisfação de Alberta com o governo federal não é nova. O sentimento, chamado de “alienação ocidental”, reflete a crença de parte da população de que Ottawa sistematicamente ignora os interesses da província.
A tensão se intensificou nas últimas décadas em torno da indústria de petróleo e gás, pilar econômico de Alberta, setor que muitos moradores acreditam ter sido prejudicado por políticas climáticas federais associadas ao Partido Liberal.
Os defensores da separação argumentam que a independência permitiria à província controlar seus próprios recursos naturais e reter a riqueza gerada localmente. Integrantes do movimento chegaram a se reunir com representantes do governo do presidente americano Donald Trump.
Jeff Rath, advogado e organizador do grupo, declarou que os encontros serviram para discutir “um estudo de viabilidade” sobre uma possível linha de crédito de US$ 500 bilhões em caso de separação, embora tenha negado qualquer pedido de financiamento aos Estados Unidos.
Obstáculos jurídicos e resistência popular
O processo, no entanto, está longe de ser linear. Um tribunal de Alberta suspendeu a verificação das assinaturas enquanto analisa uma ação movida por grupos de Primeiras Nações, que argumentam que a tentativa de separação viola direitos garantidos em tratados históricos firmados com a Coroa Britânica há mais de um século — antes mesmo da formação do Canadá moderno.
O advogado Kevin Hille, que representa a Primeira Nação Athabasca Chipewyan, afirmou que “uma fronteira internacional prejudicaria seus direitos firmados em tratados e sua forma de vida”. Hille ainda lembrou que uma decisão judicial de dezembro de 2025 já havia declarado o plebiscito ilegal por violar a Constituição canadense — embora o governo provincial tenha alterado sua legislação para contornar essa exigência.
A pergunta prevista para a consulta popular seria direta: “Você concorda que a província de Alberta deixe de fazer parte do Canadá para se tornar um Estado independente?”
Do lado oposto ao movimento, a petição “Forever Canadian” reuniu 450 mil assinaturas contrárias à separação — volume superior ao da petição separatista. As pesquisas reforçam esse cenário: levantamento realizado em fevereiro de 2026 pela empresa Abacus Data indica que apenas cerca de 25% dos albertanos apoiam a emancipação da província.
O que vem a seguir
A decisão judicial sobre a validade da petição deve ser divulgada até o fim de maio. Se as assinaturas forem confirmadas pelos tribunais, o plebiscito poderia ser realizado em 19 de outubro. Caso contrário, o grupo separatista precisaria que o próprio governo provincial propusesse a consulta popular para que ela pudesse avançar.
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