UE recebe delegação talibã em Bruxelas
Encontro discutiu deportação de afegãos enquanto críticos apontam risco de legitimar regime que restringe direitos de mulheres no Afeganistão
Representantes do regime talibã estiveram em Bruxelas nesta terça-feira, 23, para conversas com a União Europeia sobre o retorno de cidadãos afegãos ao país de origem.
Foi o primeiro contato direto entre as lideranças do bloco europeu e o grupo fundamentalista desde que ele assumiu o controle do Afeganistão, em 2021. Participaram da reunião funcionários da Comissão Europeia e delegados de 15 países-membros, mesmo sem haver reconhecimento diplomático do governo afegão pelos europeus.
Objetivo declarado é facilitar deportações
De acordo com autoridades europeias, o propósito do encontro foi abrir caminho para o envio de volta ao Afeganistão de imigrantes que tiveram pedidos de asilo negados, sobretudo os que cometeram crimes ou são vistos como ameaça.
Para isso, o bloco argumenta ser necessário manter algum nível de diálogo com quem efetivamente comanda o país.
O ministro sueco de Migração, Johan Forssell, disse que “a capacidade de trazer de volta indivíduos que não têm um direito legal de permanecer no país é um pilar central de um sistema credível e funcional de migração e asilo”.
Um porta-voz da diplomacia afegã informou que os temas tratados incluíram a possível abertura de um posto consular talibã na União Europeia, a retomada de atendimento consular a afegãos no bloco e o avanço de medidas para gerar confiança mútua entre as partes.
Crítica vem de parlamentares e ativistas
A visita gerou reação negativa entre parte dos eurodeputados e organizações de direitos humanos. Um conjunto de 37 parlamentares europeus, de partidos verdes, de esquerda, social-democratas e liberais, chegou a pedir ao chanceler belga Maxime Prévot que impedisse a entrada da comitiva afegã no país.
A diplomacia belga concedeu um visto restrito, válido por apenas um dia e limitado ao território nacional, sem livre circulação pela zona Schengen.
A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, vencedora do Nobel da Paz, criticou o encontro na rede social X: “A Europa não deve legitimar um regime responsável por uma das piores crises de direitos humanos do mundo”. Ela acrescentou que “o Talibã apagou mulheres e meninas da vida pública”.
Segundo dados oficiais da União Europeia, os países do bloco receberam cerca de 1 milhão de pedidos de asilo de afegãos entre 2013 e 2024, dos quais aproximadamente metade foi aceita.
Desde 2024, a Alemanha já deportou mais de 100 afegãos com antecedentes criminais por meio de voos fretados com apoio do Catar, política também adotada pela Áustria.
Pesquisador da Universidade de Oxford, Jeff Crisp, ex-integrante da agência de refugiados da ONU, alertou que afegãos devolvidos pela União Europeia podem voltar a enfrentar perseguição do Talibã em território afegão.
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