Trump não entende a economia do próprio país?
Economista critica fúria tarifária do presidente dos EUA, e aponta as contradições conceituais de suas medidas
Os Estados Unidos construíram sua economia sobre a globalização e a terceirização da produção, concentrando-se em áreas de alto valor agregado como tecnologia e propriedade intelectual. No entanto, a recente ascensão de políticas tarifárias, decididas de maneira intempestiva e por motivações variadas por Donald Trump, coloca em questão a sustentabilidade desse modelo, conforme apontado pelo economista Daniel Leichsenring no canal Market Makers.
A abordagem protecionista é vista pelo analista como uma medida contraproducente, que desafia o próprio cerne da geração de valor americano.
A essência do sucesso globalizado americano
Desde o final dos anos 1980, empresas norte-americanas pioneiras, como a Nike, começaram a buscar parceiros globais com custos de mão-de-obra significativamente menores para a fabricação de bens, que eram então importados para abastecer o mercado doméstico.
Esse movimento de deslocalização da produção, ou terceirização, foi um pilar dos mercados globais, não apenas reforçando a presença de marcas ocidentais (sobretudo, americanas) em todo o mundo, mas também permitindo que a economia dos EUA se concentrasse no que faz de melhor: a criação de valor intangível. A criação intelectual.
A grande diferença dos EUA sempre residiu na geração de propriedade intelectual, desenvolvimento tecnológico e inovação. Empresas americanas, em vez de focar na manufatura de baixo custo, investem em pesquisa, design e marketing, colhendo retornos substanciais na forma de royalties e lucros extraordinários.
O exemplo da Apple é um bom exemplo dessa lógica: um iPhone, cujo preço de varejo nos EUA pode girar em torno de 1.000 dólares, tinha, até pouco tempo atrás, seu custo de montagem na China representando uma fração mínima desse valor, cerca de 6% do valor de varejo, como no caso do iPhone 6.
A vasta maioria dos iPhones (95%) é produzida em fábricas como as da Foxconn. A margem de lucro da Apple, que chega a 50% do valor de varejo, é uma rentabilidade que advém de sua propriedade intelectual e de sua capacidade de integrar componentes de diversas partes do mundo (Alemanha, Taiwan, Japão, EUA), finalizando a montagem na China.
O verdadeiro valor, para empresas como a Apple, não está no dispositivo físico em si, mas nos bilhões investidos em propriedade intelectual, que o transformam em objeto de desejo e ferramenta tecnológica de impacto cultural.
Esse padrão de negócio se estende a praticamente todos os setores da economia americana, da tecnologia à indústria farmacêutica, e até mesmo em produtos como calçados, onde a tecnologia e o marketing geram margens elevadas.
O contraste das tarifas e a inviabilidade da reindustrialização
A imposição de tarifas sobre produtos importados, frequentemente defendida como um meio de reindustrializar o país e trazer empregos de volta, é vista Leichsenring como uma medida profundamente equivocada para a economia americana. Tal estratégia contraria a estrutura organizacional e o modo de fazer negócios, consolidado nos EUA.
Se a produção de bens como o iPhone fosse totalmente realocada para os Estados Unidos, os custos disparariam – um iPhone, por exemplo, poderia custar 4.500 dólares, tornando-o inacessível para a maioria dos consumidores e inviabilizando a rentabilização da propriedade intelectual.
Os Estados Unidos, conforme a análise do especialista, não têm capacidade para uma reindustrialização em larga escala que seja economicamente viável. Embora haja algum espaço para políticas de segurança nacional, que incentivem a produção de itens estratégicos, como semicondutores, em uma escala menor, a ideia de uma “guerra tarifária” abrangente é uma abordagem ultrapassada, reminiscentes de políticas mercantilistas do século passado.
Estados Unidos do Brasil?
Daniel Leichsenring traça um paralelo com a experiência brasileira, que, ao adotar políticas protecionistas desde a era da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), se condenou a ser uma das economias mais fechadas globalmente, com baixa produtividade e dificuldades em importar insumos de alta tecnologia. Essa incapacidade de participar plenamente das cadeias de valor globais atrasa o ciclo de produtos e limita o crescimento.
Ainda assim, despeito dos riscos que as políticas tarifárias representam, o economista expressa um certo otimismo em relação à resiliência da economia americana no longo prazo. Sua aposta é que a força propulsora da geração de valor nos EUA, centrada na inovação, desenvolvimento tecnológico e propriedade intelectual, seja robusta o suficiente para superar os impactos de medidas protecionistas temporárias.
Para sorte dos americanos, o país é maior que seu presidente.
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