Trogloditas no século XXI? como funciona a rotina das pessoas que vivem na maior cidade subterrânea da Europa
Casas subterrâneas de Guadix usam ventilação natural para manter temperatura estável o ano inteiro
A cerca de 40 minutos de Granada, no sul da Espanha, existe uma cidade onde milhares de pessoas moram literalmente dentro das montanhas. Guadix é a maior cidade subterrânea da Europa, e o que começou há 500 anos como abrigo improvisado para populações deslocadas tornou-se um modelo singular de moradia com internet, água encanada e uma qualidade de vida que desafia qualquer preconceito sobre o que significa viver debaixo da terra.
Como essa cidade subterrânea surgiu
A história começa com a Reconquista Espanhola, quando a tomada de Granada pelos Reis Católicos forçou muitos muçulmanos a deixar a cidade e buscar refúgio nas redondezas. O solo argiloso de Guadix oferecia uma solução prática: era fácil de escavar e, após exposto ao ar, endurecía naturalmente, formando estruturas resistentes. O que era necessidade virou tradição, e a tradição virou identidade.
Hoje, entre 3 mil e 4,5 mil pessoas vivem nas casas-caverna espalhadas pelas colinas da cidade, que tem aproximadamente 20 mil habitantes no total. As moradias possuem escrituras, pagam impostos e exigem licença de habitabilidade, sendo tratadas legalmente como qualquer apartamento convencional.

O que você vê e o que está escondido
De fora, a paisagem confunde. As casas quase não aparecem. O que marca a presença humana nas colinas são as chaminés brancas que surgem do solo em todas as direções, únicas partes visíveis de construções quase inteiramente enterradas. Cada chaminé cumpre funções essenciais para tornar a vida subterrânea possível.
As paredes internas são tradicionalmente pintadas de branco com cal, prática que desinfeta, reduz a umidade e reflete luz para iluminar ambientes que recebem pouca ou nenhuma luz natural.
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A temperatura perfeita que nenhum ar-condicionado entrega
Uma das razões mais práticas para continuar vivendo nas cavernas é o conforto térmico. A temperatura interna permanece entre 18°C e 22°C durante todo o ano, sem aquecedor no inverno e sem ar-condicionado no verão, mesmo sob o calor intenso da Andaluzia. A própria argila age como isolante natural, estabilizando o ambiente independentemente do que acontece do lado de fora.
Por conta da ventilação constante garantida pelas chaminés, muitas casas dispensam portas internas. Em vários lares, apenas a entrada principal e o banheiro têm portas convencionais. Os demais ambientes usam cortinas ou ficam completamente abertos para favorecer a circulação do ar.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Camallerys Vlogs mostrando como é a vida das pessoas que vivem na maior cidade subterrânea da Europa.
Como é o dia a dia de quem mora numa caverna
Os moradores são diretos quando descrevem a experiência: é uma vida normal. As casas têm água, eletricidade, cozinha equipada, banheiro e acesso à internet. Muitos dos habitantes nasceram ali e nunca consideraram morar em outro tipo de moradia. A ausência de sinal de celular em alguns pontos é tratada pelos próprios moradores não como falha de infraestrutura, mas como vantagem, especialmente nos restaurantes instalados dentro das cavernas.
Dormir em Guadix, segundo quem experimenta, é uma experiência de silêncio absoluto e escuridão total. Sem entrada de luz natural nos quartos internos, acordar sem despertador torna-se genuinamente difícil. Em compensação, o isolamento acústico elimina ruídos externos por completo, e a temperatura constante garante noites confortáveis mesmo nos meses mais frios.
Quanto custa morar dentro de uma montanha
O mercado imobiliário de Guadix reflete a diversidade das propriedades. Cavernas simples que precisam de reforma podem ser encontradas por entre 20 mil e 40 mil euros. Imóveis mais completos e modernizados chegam a cerca de 115 mil euros, ainda muito abaixo do preço médio de apartamentos equivalentes em cidades espanholas de porte similar.
Guadix não é uma relíquia arqueológica nem um experimento alternativo de moradia. É uma cidade real, habitada por famílias reais, que encontrou há 500 anos uma solução arquitetônica eficiente para o seu clima e seu solo, e que nunca precisou abandoná-la. Visitar ou morar lá desfaz, rapidamente, qualquer ideia de que viver debaixo da terra tem algo de primitivo.
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