Sob pressão dos EUA, Cuba anuncia que libertará 51 presos políticos
Anúncio coincide com bloqueio de petróleo imposto por Washington e mediação do Vaticano nas negociações entre os dois países
A ditadura cubana anunciou na quinta-feira, 12, que libertará 51 presos políticos nos próximos dias. A medida foi apresentada pelas autoridades da ilha como um gesto de boa vontade ao Vaticano, que atua como mediador nas conversações entre Havana e Washington, em meio ao aperto diplomático e econômico promovido pelo governo Donald Trump.
A soltura foi comunicada pelo ditador Miguel Díaz-Canel em pronunciamento à nação, na manhã de quinta-feira, às 7h30 (horário local). O governo não divulgou os nomes dos liberados, nem os crimes pelos quais foram condenados — apenas informou que todos se aproximavam do fim de suas penas.
Bloqueio de petróleo e crise humanitária
A pressão norte-americana sobre Cuba se intensificou com uma série de medidas adotadas pela administração Trump. Os EUA confiscaram carregamentos de petróleo venezuelano destinados à ilha, ameaçaram países com tarifas caso exportassem combustível para Cuba e, em seguida, interceptaram um navio-tanque a caminho do país.
O resultado foi uma das piores crises de abastecimento enfrentadas pela ilha em anos. Cortes de energia passaram a ocorrer diariamente em diversas regiões, postos de combustível ficaram sem estoque e parte da população voltou a usar carvão e lenha para cozinhar.
Funcionários da ONU condenaram o bloqueio e declararam estar em negociações com Washington para autorizar o envio de combustível por razões humanitárias.
Trump e o secretário de Estado Marco Rubio sinalizaram que mudanças profundas em Cuba — incluindo uma transição de governo — são condição para qualquer acordo. O jornal The New York Times informou que Rubio teria discutido um possível entendimento com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, ex-líder cubano de 94 anos, ainda considerado a figura de maior influência no país.
O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, afirmou a jornalistas, na semana do anúncio, que a Igreja Católica havia contatado o chanceler cubano e “dado os passos necessários para promover uma solução dialogada” para os problemas do país.
Pressionou a gente solta
Em 2015, após o anúncio do degelo entre Cuba e os EUA durante o governo Barack Obama, 53 detentos foram soltos, entre eles o opositor José Daniel Ferrer — que voltou a ser preso anos depois, após participar de protestas contra o governo.
Também em 2015, antes da visita do papa Francisco à ilha, Cuba liberou mais de 3.500 pessoas, embora dissidentes tenham afirmado que nenhum preso político estava entre os soltos. No início de 2024, após negociações com o Vaticano, 553 detentos foram libertados — Ferrer entre eles.
O próprio Ferrer, em entrevista na quinta-feira, avaliou que o regime libera pessoas que já haviam cumprido suas penas para colher benefícios políticos. “Acredito que o regime está encurralado, porque os Estados Unidos nunca o pressionaram dessa forma”, afirmou.
O grupo de direitos humanos Prisoners Defenders registrou, em fevereiro deste ano, mais de 1.200 presos políticos em Cuba. Segundo a organização Human Rights Watch, em relatório divulgado no início do mesmo ano, detentos políticos têm acesso negado a atendimento médico e são mantidos em instalações superlotadas, sem água e alimentação adequadas.
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