Rússia disposta a negociar paz com a Ucrânia?
Kremlin admite retomar conversas depois do pleito legislativo russo; estudiosos não acreditam na possibilidade
As tratativas para pôr fim à guerra entre Rússia e Ucrânia reapareceram na agenda diplomática depois de um período de meses sem avanços.
O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, declarou à DW que aceitaria se encontrar com o ditador russo, Vladimir Putin, durante a cúpula do G20, marcada para dezembro em Miami. O Kremlin, porém, recusou a proposta.
Ainda assim, o porta-voz russo Dmitri Peskov não descartou uma rodada de negociações envolvendo Rússia, Ucrânia e Estados Unidos em outubro.
Visitas diplomáticas antecedem sinalização russa
No começo de setembro, o enviado especial do governo americano, Steve Witkoff, e Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estiveram em Moscou para uma reunião com Putin.
Na sequência, os dois seguiram para Kiev, onde se reuniram, em 6 de setembro, com Zelenski e integrantes do governo ucraniano. Representantes das áreas de segurança nacional de França, Alemanha e Reino Unido também acompanharam os encontros na capital ucraniana.
Uma fonte do governo francês relatou que os representantes americanos repassaram aos aliados europeus o conteúdo das conversas mantidas com Putin.
Segundo essa fonte, a mensagem transmitida a Paris foi a de que existe uma “nova disposição da Rússia para negociações” a partir do momento em que se encerrarem as eleições para a Duma, câmara baixa do Legislativo russo, e que seria necessário preparar as condições para retomar o processo negociador.
A Comissão Europeia reagiu com reservas às visitas dos negociadores americanos a Moscou e Kiev. O porta-voz do órgão, Christian Wiegand, declarou: “Precisamos da vontade da Rússia, que claramente não vemos no momento”.
Ele defendeu a manutenção das sanções contra o governo russo e da assistência à Ucrânia como forma de pressionar Moscou a buscar um acordo consistente.
Especialistas duvidam de avanço real
Analistas consultados pela reportagem descartam a hipótese de que o aumento de contatos diplomáticos indique proximidade de um acordo. Para o especialista em segurança Roland Freudenstein, do Brussels Freedom Hub, o governo Trump busca apresentar resultados antes das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos.
Já a Rússia, segundo ele, tenta abrir uma fratura entre Washington e Kiev sem alterar sua posição de fundo: “Putin mantém a ilusão de que está sempre pronto para negociar. Mas ele não cedeu em quatro anos e meio e não cederá enquanto achar que pode vencer – e ele acredita que pode”.
O pesquisador Arkady Moshes, do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais, também se mostrou pouco otimista: “Sou extremamente cético quanto às perspectivas de negociações de paz com os Estados Unidos e ainda mais cético quanto à participação dos europeus”.
O posicionamento oficial de Moscou segue “extremamente radical”, com foco nos resultados militares no terreno.
Para Iulian Romanyshyn, da Universidade de Bonn, a ideia de que o resultado da eleição para a Duma abrirá espaço para negociações é infundada, já que decisões estratégicas do Kremlin não dependem desse pleito. Ele sugere que o adiamento sirva para evitar novas sanções americanas.
Freudenstein, por sua vez, associa o comportamento russo à proximidade do inverno, período em que Moscou tende a intensificar ataques contra a infraestrutura energética ucraniana antes de qualquer eventual recuo em suas exigências.
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