Rússia condena crítico da guerra a 11 anos de prisão
Lev Shlosberg, vice-presidente do partido Yabloko, é sentenciado por manifestações contrárias à invasão da Ucrânia
Um tribunal da cidade de Pskov sentenciou nesta segunda-feira, 17, o político russo Lev Shlosberg a 11 anos e um mês de prisão, sob acusação de difamar as Forças Armadas do país e divulgar informações falsas sobre a guerra na Ucrânia.
A decisão, tomada a menos de um mês das eleições legislativas russas, marcadas para 18 a 20 de setembro, integra uma série de ações do regime de Vladimir Putin contra vozes de oposição ao conflito, iniciado em fevereiro de 2022.
Segundo julgamento em dois anos
Aos 63 anos, Shlosberg ocupa a vice-presidência do Yabloko, legenda liberal que é o único partido oficialmente registrado a se posicionar contra a guerra. Ele integrou a assembleia legislativa regional de Pskov entre 2016 e 2021, e já havia sido processado uma vez nos últimos dois anos, quando foi enquadrado como “agente estrangeiro” — classificação que amplia a fiscalização estatal sobre o indivíduo.
As novas acusações têm origem em uma fala pública na qual defendeu o encerramento das hostilidades, além de uma publicação feita em seu canal no Telegram. Nela, reproduziu a capa de um jornal britânico que trazia a foto de uma mulher ferida ao lado de Putin, sob o título “O sangue dela… as mãos dele”. O opositor nega as acusações e está detido preventivamente desde dezembro de 2025.
Em sua fala final perante o tribunal, na sexta-feira anterior à sentença, Shlosberg declarou que a Rússia percorreu, em três décadas, “um caminho que vai da esperança de liberdade à destruição quase completa dos direitos e liberdades humanas e civis”. Ele também previu reações sociais quando forem conhecidos os números reais de mortos no conflito.
O Yabloko classificou a punição como uma “sentença bárbara” aplicada por “amor à pátria e apelos por um cessar-fogo” e informou que vai recorrer.
A diretora da Anistia Internacional para a Europa Oriental e Ásia Central, Marie Struthers, afirmou que “o processo e condenação arbitrários são represálias flagrantes por exercer seu direito à liberdade de expressão para pedir a paz” e cobrou a soltura imediata do político.
Partido fica fora da disputa eleitoral
No mesmo dia, a Suprema Corte da Rússia, em Moscou, rejeitou um recurso do Yabloko e confirmou sua exclusão da disputa pelas cadeiras da Duma, câmara baixa do Parlamento. Em julho, a Comissão Eleitoral Central havia autorizado a participação da sigla ao lado de outras dez legendas, decisão que recebeu apoio de setores da oposição exilada e de jovens nas redes sociais.
A reviravolta ocorreu depois que partidos alinhados ao Kremlin, como o nacionalista Partido da Pátria, acionaram a Justiça alegando violação de direitos autorais, extrapolação de limites de gastos de campanha e ilegalidade na postura do Yabloko em relação ao território ucraniano. Segundo a DW, a corte acolheu os argumentos apresentados pela legenda governista.
O presidente do Yabloko, Nikolai Rybakov, afirmou que o partido buscará novos caminhos jurídicos, incluindo uma queixa ao Supremo Tribunal e eventual recurso ao Tribunal Constitucional, para garantir “uma maneira pacífica, legal e segura de votar pela paz, liberdade e por uma vida sem medo na Rússia”.
Sobre a pena imposta a Shlosberg, declarou: “Nossos sentimentos estão com Lev e outros presos políticos que lutaram e lutam pela paz, para que as pessoas não morram”.
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