Rio artificial com mais de 4.000 km construído para levar água a uma das áreas mais secas do mundo: a obra mais impressionante do planeta que deixa cientistas e engenheiros incrédulos
Rede subterrânea no Saara leva água a cidades e faz da Líbia um caso único de engenharia no deserto
Embaixo do maior deserto do mundo, existe um rio. Ele não tem corredeiras nem margem, mas tem 4.000 km de extensão, canos de 4 metros de diâmetro e carrega água que caiu como chuva há cerca de 40 mil anos. O Grande Rio Artificial da Líbia, ou Great Man-Made River, é a maior obra de irrigação já construída pela humanidade, segundo a Encyclopaedia Britannica, e abastece 70% de toda a água usada no país.
Como essa água parou debaixo do deserto?
A água não vem de rios ou chuva atual. Ela está armazenada no Sistema Aquífero de Arenito Núbio, uma reserva subterrânea gigante que se estende pela Líbia, Egito, Sudão e Chade.
Essa água se acumulou durante a última era glacial, quando o Saara tinha clima úmido. Hoje ela fica presa a centenas de metros de profundidade, sem recarga natural. É o que os geólogos chamam de água fóssil, ou seja, uma reserva finita que não se renova.

Como o projeto foi descoberto e construído?
Tudo começou por acidente. Em 1953, empresas petrolíferas que perfuravam o sul da Líbia encontraram enormes bolsões de água doce no lugar do petróleo que procuravam. As reservas eram tão grandes que surgiram os primeiros planos para aproveitá-las, segundo a Wikipedia. A construção oficial começou em 1984. Veja como o projeto foi tomando forma:
Qual é a escala real dessa obra?
Os números são difíceis de imaginar. A rede tem mais de 1.300 poços, a maioria com mais de 500 metros de profundidade. Os canos são de concreto protendido com aço, cada um medindo 4 metros de diâmetro e 7 metros de comprimento. São 250 mil seções de cano enterradas a 7 metros de profundidade, segundo a Britannica.
No pico, o sistema pode transportar 6,5 milhões de metros cúbicos de água por dia. Para ter ideia: isso seria suficiente para encher 2.600 piscinas olímpicas todos os dias. O custo total projetado da obra é de mais de US$ 25 bilhões, tudo financiado com receitas do petróleo líbio, sem empréstimos de bancos internacionais.
O canal principal tem capacidade para levar água por até 1.600 km de distância, do sul do Saara até as cidades da costa do Mediterrâneo.
Quem tem curiosidade sobre grandes obras de engenharia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Pandora BR, que conta com mais de 130 mil visualizações, onde o apresentador mostra o projeto do grande rio artificial idealizado por Muammar Gaddafi na Líbia:
Como o projeto se compara a outras grandes obras hídricas do mundo?
O Grande Rio Artificial não é o único projeto do tipo, mas é o maior em tubulações subterrâneas. A FAO reconhece o projeto como referência em distribuição hídrica em zonas áridas. Veja como ele se compara com outros sistemas semelhantes:
| Projeto | Extensão e volume | Tipo de água |
|---|---|---|
| Grande Rio Artificial — LíbiaMaior rede subterrânea de tubulações do mundo | 4.000 km / 6,5 milhões m³ por dia | Água fóssil — não se renova |
| South-to-North Water Diversion — ChinaMaior transposição hídrica do mundo em volume | Mais de 3.000 km / bilhões m³ por ano | Água de rios renovável |
| Transposição do São Francisco — BrasilLeva água a cidades do semiárido nordestino | Mais de 700 km de canais | Água de rio renovável |
| New Valley Project — EgitoUsa o mesmo aquífero Núbio que a Líbia | Em expansão desde os anos 1990 | Água fóssil — não se renova |
A guerra destruiu o que a engenharia construiu?
O projeto chegou a mais de 70% de conclusão antes de 2011, quando Gaddafi foi derrubado. Durante a guerra civil, partes da infraestrutura foram danificadas. Em julho de 2019, 101 dos 479 poços do sistema oeste já haviam sido desativados, segundo dados registrados pela Wikipedia com base em fontes da própria autoridade gestora do projeto.
Em abril de 2020, um grupo armado tomou uma estação de controle e cortou o abastecimento de água para mais de 2 milhões de pessoas em Trípoli. O ataque foi condenado pela ONU por razões humanitárias. Mesmo assim, o sistema continua operando em partes e ainda é a principal fonte de água da maioria dos 7 milhões de habitantes do país.
Essa água vai acabar algum dia?
É uma das maiores preocupações sobre o projeto. Como a água fóssil não se renova, a reserva é finita. Alguns especialistas estimam que o aquífero pode durar mais 60 anos no ritmo atual de extração. Outros dizem que pode ser menos, dependendo do aumento da demanda e da falta de manutenção nos poços.
O Middle East Institute aponta que a Líbia não tem plano concreto para o que acontece quando a água acabar. Sem dessalinização em escala e sem estabilidade política para investir no sistema, o país vive uma corrida contra o tempo para manter funcionando aquilo que o próprio governo chamou de a oitava maravilha do mundo.
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