Redes sociais viciam como drogas, dizem pesquisadores
Estudos de Michigan State, Stanford e UFMG mostram que mecanismos cerebrais acionados por curtidas e notificações são os mesmos da cocaína e dos opioides
Pesquisadores de universidades de referência demonstram que o uso excessivo de redes sociais provoca alterações no cérebro equivalentes às causadas por drogas como cocaína, metanfetamina e opioides.
Testes cognitivos, ressonâncias magnéticas e análises clínicas indicam prejuízos em áreas ligadas ao autocontrole, à tomada de decisão e ao processamento de recompensas. A semelhança com os efeitos de substâncias químicas evidencia um problema de saúde pública que atinge especialmente adolescentes.
Na Michigan State University, cientistas aplicaram o Iowa Gambling Task e observaram que usuários problemáticos de redes sociais apresentam déficits de julgamento idênticos aos de dependentes de drogas pesadas.
A Academia de Ciências, em estudo com jovens diagnosticados com dependência digital, registrou mudanças na substância branca cerebral também vistas em usuários de álcool e drogas ilícitas. Outras pesquisas de neuroimagem detectaram disfunções no córtex cingulado anterior e no córtex pré-frontal medial, regiões diretamente afetadas por vícios químicos.
Os sintomas de abstinência reforçam a comparação. Estudo publicado na revista PLOS Mental Health com 237 jovens revelou que a interrupção do uso das redes pode gerar ansiedade, irritabilidade, alterações de sono, depressão e, em casos graves, episódios psicóticos.
O psicólogo Marc Masip, especialista em dependência tecnológica, resume: “o celular é a heroína do século 21”.
A psiquiatra Anna Lembke, da Universidade Stanford, afirma que as redes sociais ativam “os mesmos circuitos que drogas tradicionais como o álcool”.
No Brasil, a Universidade Federal de Minas Gerais constatou que 70,3% dos adolescentes avaliados apresentam dependência de smartphones, quadro associado a transtornos de sono, dores físicas e sofrimento psíquico.
O Instituto Cactus, em relatório de 2024, ligou 45% dos casos de ansiedade em jovens ao uso intensivo das redes e mostrou que passar mais de três horas diárias conectado aumenta em 30% o risco de depressão.
O pesquisador Michael Easter, da Universidade de Nevada, explica esse mecanismo pelo “ciclo da escassez”: uma oportunidade, uma recompensa imprevisível e a possibilidade de repetição imediata.
O padrão, usado em cassinos, foi replicado nas plataformas digitais e tornou as notificações equivalentes a doses de estímulos químicos, capazes de disparar a mesma descarga de dopamina que drogas potentes.
Apesar das evidências, as grandes empresas de tecnologia resistem a regulamentações que poderiam reduzir danos.
Relatórios oficiais mostram que Meta, Alphabet, Microsoft, ByteDance, Snap e X gastaram US$ 61,5 milhões em lobby em 2024 para evitar leis sobre segurança digital.
Documentos internos revelados por Frances Haugen mostraram que a Meta sabia que o Instagram agravava distúrbios alimentares e pensamentos suicidas em adolescentes, mas manteve o modelo de negócios centrado em engajamento.
A comparação com drogas não é apenas retórica: jovens expostos ao ciclo compulsivo das redes apresentam danos neurológicos, comportamentais e emocionais similares aos de dependentes químicos.
A diferença é que, enquanto drogas são combatidas socialmente, as redes permanecem aceitas e incentivadas, tornando o vício digital um problema ainda mais insidioso e difícil de enfrentar.
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