Rebocar icebergs até o deserto: o plano que um príncipe saudita financiou nos anos 1970, como ele pretendia vencer o derretimento e por que nunca saiu do papel

21.10.2026

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Rebocar icebergs até o deserto: o plano que um príncipe saudita financiou nos anos 1970, como ele pretendia vencer o derretimento e por que nunca saiu do papel
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7 minutos de leitura 21.10.2026 10:53 comentários
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Rebocar icebergs até o deserto: o plano que um príncipe saudita financiou nos anos 1970, como ele pretendia vencer o derretimento e por que nunca saiu do papel

Mohammed bin Faisal Al Saud criou uma empresa para levar gelo antártico ao Mar Vermelho, falou em reboque em até cinco anos e desistiu em 1982

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Rebocar icebergs até o deserto: o plano que um príncipe saudita financiou nos anos 1970, como ele pretendia vencer o derretimento e por que nunca saiu do papel
Bloco de gelo de geleira num hangar dos anos 1970. Imagem gerada por IA

Em outubro de 1977, cerca de 200 cientistas, engenheiros e representantes de empresas e governos de 18 países se reuniram em Ames, no estado americano de Iowa, para discutir uma pergunta que parecia saída de ficção: dá para rebocar icebergs da Antártida até o Oriente Médio e transformar o gelo em água potável? O encontro, chamado First International Conference on Iceberg Utilization, foi realizado na Iowa State University de 2 a 6 de outubro, segundo o registro histórico do Environment & Society Portal, do Rachel Carson Center.

Quem bancou boa parte da conta foi o príncipe Mohammed bin Faisal Al Saud, filho do rei Faisal e responsável pelo programa de dessalinização da Arábia Saudita. De acordo com reportagem do Anchorage Daily News publicada em agosto de 2026, ele pagou cerca de metade dos custos da conferência. O outro patrocinador, segundo o mesmo portal do Rachel Carson Center, foi a National Science Foundation, a agência federal de ciência dos Estados Unidos.

O bloco de gelo trazido do Alasca para gelar os drinques dos participantes ficou famoso e já rendeu a história da viagem do gelo do Alasca até Iowa. Aqui o foco é outro: o plano que estava por trás dele.

Engenheiro desenha o reboque de um iceberg envolto em lona por rebocadores
O plano de rebocar icebergs no papel. Imagem gerada por IA

Um príncipe contra o custo da dessalinização

A lógica do príncipe era econômica. Dessalinizar água do mar consome muita energia e custa caro, e ele procurava uma alternativa mais barata para um país sem rios perenes. O gelo dos icebergs antárticos é água doce, formada a partir de neve compactada. Se fosse possível levá-lo inteiro até o Mar Vermelho, bastaria derretê-lo na chegada.

A ambição tinha escala. Segundo o Anchorage Daily News, o príncipe propôs rebocar um iceberg antártico de 85 milhões de toneladas por cerca de 5 mil milhas, atravessando o Oceano Índico e o Mar Vermelho, por 90 milhões de dólares. A revista Foreign Policy, em texto de 2011, descreve uma variação do plano: um iceberg de 100 milhões de toneladas, embrulhado em lona de vela e plástico, rebocado até o Mar Vermelho por um custo estimado em 100 milhões de dólares. Os números mudam conforme a fonte, o que por si só mostra o quanto o projeto ainda era uma conta de cabeça.

Para levar a ideia adiante, o príncipe criou a empresa Iceberg Transport International. A revista britânica Geographical relata que a meta era fazer as primeiras entregas a países com falta de água já em 1979. Na conferência de Ames, ele foi ainda mais otimista em público: “Talvez a gente reboque um iceberg em três a cinco anos”, disse, segundo o Anchorage Daily News.

Como pretendiam vencer o derretimento

O inimigo número um era óbvio: o gelo derrete no caminho, sobretudo quando o reboque cruza águas tropicais. As propostas discutidas em 1977 atacavam o problema de três jeitos.

  • Isolar o bloco. O engenheiro John L. Hulk sugeriu cobrir os icebergs com mantas de plástico para retardar o derretimento, conforme o Anchorage Daily News. A ideia de embrulhar o gelo em lona e plástico aparece também na descrição da Foreign Policy.
  • Dar motor ao próprio iceberg. O príncipe apresentou um artigo sobre o uso de rodas de pás para propulsão de icebergs, com usinas de energia instaladas sobre o gelo, segundo o mesmo jornal do Alasca.
  • Cortar e moldar. O portal do Rachel Carson Center registra que a conferência discutiu reboque, corte e derretimento dos blocos, além dos efeitos dos icebergs sobre o clima local.

Nenhuma dessas soluções foi testada em escala real. O que a conferência produziu foram artigos, palestras, filmes e modelos matemáticos, que davam ao gelo flutuante um verniz de recurso hídrico legítimo, nas palavras do registro histórico.

Por que o plano nunca saiu do papel

A previsão de três a cinco anos não se cumpriu. De acordo com a Futura Sciences, o príncipe e o professor Abdo Husseiny, da Iowa State, que conduzia a pesquisa, abandonaram o projeto em 1982, depois de não conseguirem apoio financeiro duradouro nem aprovação oficial do governo saudita. A mesma publicação acrescenta que a oscilação do preço do petróleo empurrou o custo previsto da água de iceberg muito acima das estimativas iniciais. A Geographical resume de forma parecida: faltou apoio da família real.

Havia ainda os problemas técnicos que ninguém tinha resolvido: como prender um bloco de milhões de toneladas, como evitar que ele rachasse no meio do oceano e quanto combustível seria gasto em meses de viagem. O Anchorage Daily News registra que, até 2026, nenhum iceberg havia sido rebocado para virar água de beber. Mohammed bin Faisal morreu em 2017, sem ver o gelo chegar à Arábia.

O sonho era grande demais para a engenharia e para o caixa da época, e talvez ainda seja.

A ideia de rebocar icebergs voltou outras vezes

Um dos engenheiros da equipe dos anos 1970, o francês Georges Mougin, nunca largou o tema. Segundo o site Live Science, em reportagem de agosto de 2011, ele retomou o projeto com modelagem em computador da empresa francesa Dassault Systèmes. A simulação levou um iceberg virtual de 7 milhões de toneladas da região da Terra Nova, no Canadá, até as Ilhas Canárias, puxado por um único rebocador, com uma saia têxtil flutuante de cerca de 12 metros para limitar a erosão pela água do mar. O Live Science fala em cerca de 140 dias de viagem e custo de 11,5 milhões de dólares; o Phys.org, no mesmo período, informou que o bloco simulado chegou ao destino tendo perdido 38% da massa.

Em 2018, a ideia apareceu nos Emirados Árabes. O jornal Gulf News noticiou que a empresa National Adviser Bureau, do empresário Abdullah Al Shehi, planejava um projeto de 50 milhões de dólares para trazer icebergs da região da Ilha Heard até a costa de Fujairah, numa viagem de 12 mil quilômetros, com teste previsto para 2019. A Geographical relata que o empresário disse não ter recebido financiamento. O iceberg nunca chegou.

Também houve propostas para levar gelo à Cidade do Cabo, na África do Sul, e o Reino Unido chegou a avaliar e rejeitar, em 1992, um plano de reboque de icebergs do Ártico para aliviar uma seca, segundo a mesma revista britânica. Rebocadores, por sua vez, já desviam icebergs menores na costa leste do Canadá, mas para proteger plataformas de petróleo, e não para abastecer cidades. Para quem gosta de gelo à deriva, vale acompanhar também o bloco gigante que se chocou com uma ilha da Groenlândia e resistiu inteiro.

No Brasil, a resposta veio dos poços

O Nordeste brasileiro conhece bem o problema que movia o príncipe saudita, mas a solução adotada aqui foi bem mais terrena. O Programa Água Doce, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, instala sistemas de dessalinização que tratam a água salobra de poços em comunidades rurais do semiárido até ela atingir o padrão de potabilidade para consumo humano.

Segundo balanço do ministério divulgado em julho de 2025 pela Agência do Rádio, do portal Brasil 61, o programa implantou mais de 1.100 sistemas em dez estados desde sua criação, em 2004, e 110 novos sistemas entraram em operação apenas no primeiro semestre daquele ano, 70 deles em Pernambuco. Não envolve rebocador nem saia térmica: é um poço, uma estação de tratamento e um chafariz na comunidade. Quase meio século depois de Ames, é esse tipo de solução, pequena e local, que de fato chega à torneira.

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