Qatar, o país esquecido: gastou mais de 200 bilhões de dólares na Copa de 2022 e agora convive com estádios iluminados, ruas vazias e um legado sem resposta

11.10.2026

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5 minutos de leitura 12.06.2026 12:13 comentários
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Qatar, o país esquecido: gastou mais de 200 bilhões de dólares na Copa de 2022 e agora convive com estádios iluminados, ruas vazias e um legado sem resposta

O país transformou o Mundial em vitrine global, mas ainda tenta dar função permanente a estádios, hotéis e cidades construídas para o evento

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Qatar, o país esquecido: gastou mais de 200 bilhões de dólares na Copa de 2022 e agora convive com estádios iluminados, ruas vazias e um legado sem resposta
Qatar busca utilidade para bilionária infraestrutura após o mundial.

Era para ter sido o maior legado da história recente do futebol. O Qatar investiu mais de 200 bilhões de dólares para transformar um pequeno emirado do Golfo Pérsico na capital mundial do esporte por um mês. Quatro anos depois da Copa de 2022, o que resta é uma mistura de estádios iluminados sem multidões, cidades planejadas com ruas vazias e um relógio de contagem regressiva que ainda está de pé, mas já não tem mais nada para contar.

O que sobrou do país que parou o mundo em 2022

Quem visita Doha em 2026 encontra os símbolos da Copa preservados na paisagem urbana, mas sem o calor humano que os cercava. O relógio que marcava os dias para o início do torneio continua instalado no mesmo lugar, agora exibindo a data atual com partes da tela visivelmente danificadas pelo calor intenso. Ao redor dele, letras e estruturas associadas ao Mundial seguem firmes, como se o Qatar ainda não soubesse bem o que fazer com a memória do evento.

O Museu de Arte Islâmica, um dos melhores pontos para fotografar a skyline de Doha, que durante a Copa transbordava de visitantes, aparece hoje praticamente vazio na área externa. A cafeteria interna reúne alguns turistas, sobretudo porque oferece refúgio contra os mais de 40°C que castigam a cidade. A euforia de novembro de 2022 simplesmente não se sustentou no cotidiano.

Símbolos e monumentos da Copa permanecem vazios sob calor.

Como o Qatar usou a Copa para se colocar no mapa do turismo global

Antes de se tornar uma potência regional, o Qatar era um pequeno território ligado à pesca artesanal de pérolas, história hoje simbolizada por um monumento em forma de pérola gigante em um dos portos da cidade. A virada veio com a descoberta de grandes reservas de gás e petróleo, e a riqueza gerada permitiu ao país construir aeroportos, arranha-céus, hotéis, estádios e cidades inteiras em questão de décadas.

A Copa foi o ápice dessa estratégia de projeção internacional e, em partes, funcionou. O Qatar teria saltado de cerca de 2 milhões de visitantes por ano antes do Mundial para 5,5 milhões em 2025. O torneio colocou o país no radar do turismo global, mesmo que manter esse nível de interesse ao longo do tempo seja um desafio bem mais complexo do que organizar um mês de jogos.

Leia também: Marco Aurélio, imperador que transformava obstáculo em matéria-prima de caráter: “O que fica no caminho torna-se o caminho”

Estádios bilionários e a pergunta que ninguém quer responder

O Qatar teve 12 anos para se preparar e usou cada um deles. Foram oito estádios no total, sete construídos do zero, com tecnologia de ponta e sistemas de ar condicionado integrados às arquibancadas. Cada um deles carrega hoje um destino incerto. Os casos mais emblemáticos mostram bem o problema:

  • O Estádio 974, construído com 974 contêineres e planejado para ser desmontável, ainda está de pé em 2026, com estacionamento deserto e sem sinais de desmontagem.
  • O Estádio de Lusail, palco da final entre Argentina e França com 90 mil pessoas, segue conservado, mas havia planos de reduzir sua capacidade pela metade e transformar parte da estrutura em escola ou hospital.
  • A maioria dos estádios sobrevive hoje recebendo competições regionais e eventos esportivos de menor escala, longe da atenção global que justificou sua construção.

A infraestrutura existe, está funcionando e está conservada. O que falta, por enquanto, é um propósito permanente à altura do investimento realizado.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Tío Frank mostrando como está o Qatar anos após a copa do mundo.

Lusail e o paradoxo de uma cidade construída rápido demais

Nenhum lugar no Qatar ilustra melhor o contraste entre ambição e realidade do que Lusail. A cidade foi planejada para abrigar 500 mil habitantes e construída em ritmo acelerado, com investimento estimado em 45 bilhões de dólares. Durante a Copa, era um dos centros da festa. Em 2026, as ruas estão quase sem pedestres, os estacionamentos vazios e os quiosques funcionam de forma irregular.

O problema é estrutural: a cidade foi pensada para um público de renda alta, mas a maior parte da população do Qatar é formada por trabalhadores estrangeiros com salários entre 600 e 800 dólares mensais. Os cidadãos cataris, que representam apenas cerca de 10% da população, preferem os grandes centros comerciais de luxo. Lusail ficou no meio do caminho entre os dois mundos e ainda busca sua identidade.

O Qatar encontrou uma saída ou apenas adiou o problema

O país não parou de investir depois da Copa. A estratégia atual aponta para transformar o Qatar em um hub permanente de eventos esportivos internacionais, usando a infraestrutura do Mundial como base. O metrô de Doha, que custou cerca de 36 bilhões de dólares, segue em funcionamento, agora voltado principalmente à rotina dos trabalhadores estrangeiros. Hotéis de luxo como a Katara Tower, com diárias entre 1.000 e 2.000 dólares, relatam ocupação de até 70%, sustentada por eventos corporativos e turismo de alto padrão.

O Qatar fez a pergunta mais difícil do esporte moderno: o que acontece quando os torcedores vão embora? A resposta ainda está sendo escrita, entre relógios parados, estádios acesos sem plateia e uma cidade planejada esperando para ser habitada. O legado da Copa existe, é visível e é imenso. Só ainda não ficou claro para quem.

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