Protestos na Bolívia chegam à terceira semana
Pressão popular pela renúncia do presidente Rodrigo Paz se intensifica em La Paz enquanto bloqueios agravam crise humanitária
Camponeses, mineiros, operários, motoristas e professores tomaram as ruas de La Paz pela terceira semana consecutiva em maio de 2026, exigindo a saída do presidente Rodrigo Paz em meio a confrontos com a polícia antimotim, uso de gás lacrimogêneo e arremesso de cartuchos de dinamita.
A capital política boliviana permanece cercada por bloqueios de estradas que provocaram escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos, com ao menos quatro mortes registradas pelo governo por impedimento de acesso a serviços de emergência.
Da pauta econômica ao pedido de renúncia
O que começou como uma série de reivindicações trabalhistas se transformou em crise política de grandes proporções. Segundo informações da agência AFP, os manifestantes — muitos deles com capacetes, ponchos e bandeiras indígenas — partiram de El Alto em direção ao centro da capital, onde a praça principal permanece bloqueada por grades e centenas de policiais.
As demandas originais incluíam reajustes salariais, combustível de qualidade e controle de preços. Com o aprofundamento da mobilização, o conjunto de setores passou a exigir a renúncia do presidente, que está há apenas seis meses no poder.
“Seis meses de governo e não conseguiu resolver o básico, os preços da cesta básica. Temos que escolher entre comprar carne ou comprar leite”, disse Melina Apaza, de 50 anos, moradora da região de Oruro.
A inflação acumulada em doze meses chegou a 14% em abril, de acordo com dados oficiais, no que os setores mobilizados descrevem como a pior crise econômica do país em quatro décadas.
Governo reorganiza ministério, mas não contém as marchas
Em resposta à convulsão social, o governo anunciou uma reorganização do gabinete com funcionários de “capacidade de escuta”, nomeando um novo ministro do Trabalho como primeiro movimento da reestruturação. A medida, no entanto, não freou as mobilizações.
O governo atribui a escalada a grupos radicais e acusa o ex-presidente Evo Morales — foragido por um caso de suposto tráfico de menor — de coordenar os protestos nos bastidores.
A cientista política Ana Lucía Velasco avaliou que a negociação se tornou estruturalmente inviável: “Não dá para renunciar um pouquinho ou renunciar por alguns dias. Uma vez que as demandas chegaram a esse ponto, a negociação se complica. Agora é uma guerra de desgaste”.
Omar Sandor, mineiro de 47 anos, acrescentou outra acusação ao presidente: “Ele quer privatizar as empresas estatais e nossos recursos naturais, como o lítio”.
Paz chegou ao poder em 2025 após o colapso eleitoral da esquerda, encerrando vinte anos de governos liderados por Evo Morales e Luis Arce. No parlamento de 130 deputados, a esquerda hoje ocupa apenas dez cadeiras.
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