Por que o mar é salgado se os rios que deságuam nele são de água doce?
O processo que torna o mar salgado e os rios não
Os rios jogam água doce no oceano há bilhões de anos, mas o mar continua salgado. A resposta para essa contradição tem três partes: de onde o sal vem, por que ele fica no oceano em vez de sair, e por que a concentração parou de crescer. Cada uma delas revela algo surpreendente sobre como a Terra funciona.
De onde vem o sal que está no mar?
O sal não nasceu no oceano. Ele veio das rochas. Quando a chuva cai sobre a terra, ela dissolve minerais das pedras num processo chamado intemperismo, o desgaste químico das rochas pela água. Esses minerais, incluindo sódio e cloreto, os dois componentes do sal de cozinha, se dissolvem na água e seguem pelos rios até o oceano.
A água dos rios tem, sim, uma pequena quantidade de sal dissolvido. Tão pequena que não dá para sentir no gosto. Mas, durante bilhões de anos, esse sal foi chegando ao oceano gota a gota, rio a rio, sem parar. No oceano, a água evapora e sobe de volta para a atmosfera como vapor. O sal, porém, não evapora junto: ele fica para trás. Com o tempo, a concentração só aumenta.

O fundo do mar também contribui com sal?
Sim, e muito. No fundo do oceano existem fendas na crosta terrestre por onde saem jatos de água superaquecida pelo magma, chamadas fontes hidrotermais. Essa água carrega minerais diretamente do interior da Terra para o oceano, sem passar por rios nem pela superfície. Vulcões submarinos fazem o mesmo: liberam gases e minerais que se dissolvem na água do mar.
Nos primeiros bilhões de anos do planeta, quando os oceanos ainda estavam se formando, os vulcões foram a principal fonte de cloro para a água do mar, na forma de ácido clorídrico liberado pelas erupções. O sódio veio das rochas do fundo oceânico que se dissolveram quando os oceanos se formaram. Juntos, sódio e cloreto formam o cloreto de sódio, o sal que representa cerca de 85% de tudo que está dissolvido no mar, segundo a Wikipédia.
Por que o mar não fica cada vez mais salgado com o tempo?
Essa é a parte mais surpreendente. O oceano recebe sal continuamente pelos rios e pelas fontes hidrotermais, mas a salinidade média se mantém estável há centenas de milhões de anos, em torno de 35 gramas de sal por litro de água. Para isso funcionar, tem que haver mecanismos que retiram sal do oceano na mesma velocidade em que ele chega.
E existem. Em lagoas costeiras rasas onde a evaporação é intensa, o sal se concentra tanto que começa a cristalizar e se deposita no fundo, saindo da água. Reações químicas entre a água do mar e as rochas do fundo também aprisionam alguns minerais. Organismos marinhos usam cálcio e outros sais para construir conchas e esqueletos, que afundam quando morrem e ficam no fundo por milênios. O oceano tem seus próprios “ralos”, conforme descrito pela UNESP Para Jovens.
Veja o resumo dos principais processos que explicam a salinidade do oceano:
Por que os rios não ficam salgados também?
A diferença está no tempo e no escoamento. O rio está em movimento constante: a água da chuva dissolve uma pequena quantidade de mineral da rocha, percorre o rio e chega ao mar em dias ou semanas. Durante esse caminho, a concentração de sal é tão baixa, menos de 0,05%, que o paladar humano não detecta. O oceano, por outro lado, é um sistema fechado sem saída: a água sai por evaporação, mas o sal fica preso.
É como uma panela no fogo. Se você deixar a água ferver e ir embora, o que sobra no fundo é o resíduo de tudo que estava dissolvido. O oceano faz isso em escala planetária, há 4 bilhões de anos, conforme explicado pelo Instituto Oceanográfico da USP.
A salinidade do mar é igual em todo lugar?
Não. A média é de 35 gramas por litro, mas há variações. Em regiões tropicais, onde a evaporação é intensa e as chuvas são menos frequentes, a água é mais salgada. Em regiões polares, o derretimento do gelo dilui o sal e reduz a concentração. O mar com maior salinidade do planeta é o Mar Morto, no Oriente Médio, com cerca de 340 gramas por litro, dez vezes mais que o oceano médio, porque fica numa região de evaporação intensa e não tem saída para o mar aberto.
Essa variação de salinidade importa para além da curiosidade. Água mais salgada é mais densa e afunda, enquanto água menos salgada fica na superfície. Essa diferença de densidade é um dos motores das correntes oceânicas, que distribuem calor pelo planeta e regulam o clima de regiões inteiras. O derretimento das geleiras polares, ao jogar água doce no oceano, ameaça enfraquecer essas correntes, com consequências que os cientistas ainda estão calculando.
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