Papa Leão prepara encíclica sobre Inteligência Artificial
Vaticano convoca especialistas para discutir documento, em momento historicamente comparado com a Revolução Industrial e a publicação da ‘Rerum Novarum’
O papa Leão XIV está conduzindo estudos para a escrita de uma encíclica que tratará dos impactos da inteligência artificial (IA) sobre a humanidade. A iniciativa, apelidada de ‘Rerum Novarum Digital’, inspira-se no texto de 1891 de Leão XIII, que tratava da justiça social durante a Primeira Revolução Industrial.
O pontífice, que adotou o nome Leão XIV em homenagem a seu antecessor, pretende dar uma resposta cristã à revolução tecnológica contemporânea. O objetivo é estabelecer limites robustos e uma regulação clara para a IA, garantindo que a tecnologia sirva ao desenvolvimento integral da pessoa humana e da sociedade.
A preparação do documento ocorreu no Vaticano na semana passada. Para subsidiar a encíclica, a Pontifícia Academia das Ciências Sociais organizou um encontro. O seminário, chamado de “Seminário sobre a Rerum Novarum Digital: Inteligência Artificial para a Paz, Justiça Social e Desenvolvimento Humano Integral”, reuniu 74 especialistas globais em tecnologia e IA.
Em um discurso anterior, o papa já havia enquadrado as inovações tecnológicas como uma nova revolução. Ele destacou que a Igreja deve responder a esta “outra revolução industrial” impulsionada pela IA, que apresenta “novos desafios para a defesa da dignidade humana, justiça e trabalho”.
A Doutrina Social da Igreja diante da IA
O novo documento pretende expandir a doutrina de justiça social da Igreja Católica, cuja fundação é justamente a “Rerum novarum” – em latim: “coisas novas”. Para o chefe do Vaticano, o debate deve ponderar as ramificações da IA à luz do desenvolvimento integral da pessoa.
Papa Francisco já havia focado nos impactos da tecnologia, mas Leão reforçou o papel da Igreja neste debate. O pontífice afirmou: “A igreja deseja contribuir para uma discussão serena e informada dessas questões urgentes, enfatizando a necessidade de ponderar as ramificações da IA à luz do desenvolvimento integral da pessoa humana e da sociedade”.
Ele complementou que essa análise exige considerar o bem-estar humano de forma completa. Isto inclui aspectos não só materiais, mas também intelectuais e espirituais.
A preocupação é evitar a desumanização. Leão XIV alertou que, se a pessoa for reduzida a meros algoritmos, “a dignidade humana corre o risco de ser diminuída ou esquecida”. Ele reiterou que “a pessoa não é um sistema de algoritmos: é uma criatura, um relacionamento, um mistério”.
Segundo Luca Belli, professor da FGV Direito Rio e participante da conferência, princípios como autonomia e controle humano são essenciais: “A autodeterminação, a autonomia e o controle humano sobre sistemas de IA são princípios da soberania digital e devem ser destacados em uma futura encíclica Rerum Novarum Digital, para garantir que IA seja um vetor de proteção da dignidade humana e evitar que, ao contrário, seja usada para controlar e desumanizar as pessoas”.
Necessidade de limites e governança global
Leão XIV exortou nações a criarem “uma governança coordenada local e global da IA, baseada no reconhecimento compartilhado da dignidade inerente e das liberdades fundamentais da pessoa humana”.
Essa postura coloca o líder da Igreja em desacordo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O republicano tem manifestado oposição a qualquer forma de regulação da IA. A visão é que regras poderiam frear o desenvolvimento da IA nos EUA, desfavorecendo o país em relação à China.
Trump tem buscado aprovar medidas para impedir estados americanos de adotarem regulamentações de segurança para sistemas de IA. Ele e seu vice, J. D. Vance, têm ainda feito ameaças de retaliação contra países que implementem legislação que possa afetar o avanço da inteligência artificial.
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