“O Rio Celestial”: como a China tentou redirecionar as chuvas para abastecer as regiões áridas do país
Tianhe, o rio celestial que a China tentou criar no céu do Tibete
Em 2018, a China anunciou que iria construir um rio. Não de água, mas de chuva no ar: o projeto Tianhe, que em mandarim significa “Rio Celestial”, pretendia usar milhares de foguetes e satélites para forçar as chuvas da monção indiana a mudar de caminho dentro do Planalto Tibetano e abastecer o norte seco do país. Cientistas chamaram o plano de inviável na hora. Em 2026, ele parece ter sido abandonado em silêncio.
Por que a China precisava de um rio no céu?
A crise hídrica da China é uma divisão geográfica: o sul do país tem água em abundância, e o norte, onde vivem centenas de milhões de pessoas e ficam as principais indústrias, sofre com escassez extrema. Cidades como Tianjin chegam a ter menos de 1.000 m³ de água por habitante por ano, o limite que a ONU define como escassez severa.
Para resolver isso, o país construiu o Projeto de Transferência de Água Sul-Norte, iniciado em 2002, com canais e túneis que já moveram dezenas de bilhões de metros cúbicos de água do rio Yangtzé para o norte. O Tianhe seria uma extensão aérea desse sistema: mover água pelo céu em vez de cavar mais canais pelo difícil terreno tibetano.

Como a semeadura de nuvens funciona na prática?
A técnica, chamada de semeadura de nuvens, existe há décadas e é usada em mais de 50 países, incluindo os Estados Unidos. Ela funciona injetando partículas dentro de nuvens existentes para acelerar a formação de gotas de chuva ou cristais de neve. Sem nuvem, não há resultado possível: a técnica não cria precipitação do nada.
O que diferenciava o Tianhe era a escala. O plano original previa:
Por que os cientistas disseram que o projeto não funcionaria?
A crítica veio de dentro da própria China. Hancheng Lu, professor da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa, publicou que o Tianhe era um “projeto absurdo e fantasioso, sem base científica nem viabilidade tecnológica”. O problema central é que a semeadura de nuvens não consegue capturar toda a umidade de um sistema atmosférico nem redirecionar o caminho da chuva de uma bacia para outra.
Jeff French, chefe de ciências atmosféricas da Universidade de Wyoming, explicou que um programa muito bem-sucedido pode produzir até 10% a mais de precipitação sobre uma cadeia de montanhas. Mas, à medida que se avança para outras regiões, o impacto cai para cerca de 1%. A ideia de criar um corredor de chuva permanente e controlado pelo ar vai além do que a ciência demonstra ser possível.

O que a China fez enquanto o Tianhe fracassava?
O Projeto de Transferência Sul-Norte seguiu avançando pelas rotas que funcionam. A rota leste, que percorre mais de 1.150 km usando parte do histórico Grande Canal, e a rota central, que vai do Reservatório de Danjiangkou até Pequim e Tianjin, já entregaram dezenas de bilhões de metros cúbicos de água. O custo total do projeto foi estimado entre US$ 62 bilhões e US$ 70 bilhões.
Veja em que pé estão as 3 rotas do megaprojeto hídrico em 2026:
| Rota | Extensão e destino | Situação em 2026 |
|---|---|---|
| LesteUsa trecho do Grande Canal histórico | Mais de 1.150 km até Tianjin | Em operação desde 2013 |
| CentralDo Reservatório de Danjiangkou | Até Pequim e Tianjin | Em operação desde 2014 |
| OesteAtravessaria o Planalto Tibetano | Até regiões áridas do noroeste | Ainda em planejamento |
Que riscos o Tianhe causou para outros países?
O Planalto Tibetano é chamado de “Torre d’Água da Ásia” porque alimenta os maiores rios do continente, incluindo o Brahmaputra, que abastece partes da Índia e Bangladesh. Qualquer manipulação em larga escala das chuvas nessa região afeta diretamente países vizinhos que dependem dos mesmos sistemas atmosféricos.
Especialistas ouvidos pela Live Science afirmaram que os medos mais extremos são exagerados: a semeadura de nuvens não consegue extrair água suficiente de um sistema de nuvens para prejudicar chuvas em outro país. Mas o fato de a China ter tentado criar um corredor de chuva permanente nessa região politicamente sensível revelou, segundo Emily Yeh, professora de geografia da Universidade do Colorado em Boulder, uma visão de mundo específica: “há um impulso de controlar e de ver o meio ambiente como uma máquina que pode ser operada”.
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