“O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental”
Peter Frankopan, historiador britânico, mostra como China e Rússia usam mágoas coloniais e nostalgia imperial para enfraquecer a ordem mundial liderada pelo Ocidente
O historiador britânico Peter Frankopan publicou neste sábado, 5, no Financial Times, artigo intitulado “China, Rússia e o abraço do ‘dragão-urso’”.
Frankopan, autor de best-sellers sobre história global, examina como a aproximação entre Moscou e Pequim se sustenta em narrativas históricas calculadas, que apresentam o Ocidente como agressor e eles próprios como vítimas ou redentores.
“Agora há mudanças que não acontecem há 100 anos. E quando estamos juntos, nós impulsionamos essas mudanças“, disse Xi Jinping a Vladimir Putin, reforçando a ideia de que a parceria entre os dois países molda um novo momento geopolítico.
Segundo Frankopan, esse discurso é parte de uma tentativa de refundar a ordem mundial a partir de valores e interpretações que desafiam diretamente o papel dos Estados Unidos e da Europa.
Putin não mede palavras. Ao anunciar a anexação de regiões da Ucrânia em 2022, afirmou que “os países ocidentais dizem há séculos que trazem liberdade e democracia, mas em vez disso escravizam e oprimem”. E concluiu: “o mundo unipolar é falso e hipócrita do começo ao fim”.
A narrativa russa apresenta o país não como potência imperialista, mas como alvo do imperialismo ocidental.
Xi também tem insistido que “os países ocidentais liderados pelos Estados Unidos implementaram uma contenção total da China”, o que traria “desafios sem precedentes ao nosso desenvolvimento”.
Em discurso no Congresso Nacional do Povo, em 2023, afirmou que a China sofreu com “guerras frequentes e humilhações de potências estrangeiras que mergulharam o povo em um abismo de sofrimento”.
Essa versão dos fatos é apresentada como pano de fundo para a atual missão da China de reerguer sua grandeza histórica.
Quando a economia da Índia ultrapassou a do Reino Unido em 2022, Narendra Modi declarou que “superamos aqueles que nos governaram por 250 anos”, afirmando que a Índia havia “quebrado as correntes de milhares de anos de escravidão”. O ressentimento pós-colonial é explorado politicamente para justificar projetos de poder.
A retórica de cooperação entre Rússia e China sustenta um discurso idealizado. Xi e Putin afirmaram em várias ocasiões que a relação entre os dois países “não tem limites”.
Em 2024, Xi falou em uma amizade “eterna e inabalável”. Segundo Frankopan, essa união se baseia não em afinidade ideológica, mas em conveniência: “o que une os dois não é uma visão comum de mundo, e sim a tentativa de reescrever a história com temas semelhantes e linguagem parecida”.
As duas potências procuram se posicionar como alternativas ao Ocidente.
A Iniciativa do Cinturão e Rota é apresentada como herdeira das antigas rotas da seda, que, segundo Xi, “permitiram que diferentes povos florescessem, apesar das diferenças raciais, culturais e religiosas”.
Um documento do governo chinês descreve a iniciativa como “um pilar-chave da comunidade global de futuro compartilhado”.
A Rússia também revisa seu passado.
Em 2023, divulgou uma nova doutrina de política externa, definindo o país como “uma civilização única euro-pacífica com mais de mil anos de Estado independente”.
O texto afirma que Moscou tem “capacidade inigualável de garantir a convivência harmoniosa de diferentes povos”. Ignora, porém, que o império russo cresceu durante séculos com guerras e anexações, inclusive contra a própria China.
“Nosso país não se manchou com os crimes sangrentos do colonialismo”, escreveu Serguei Lavrov, ministro russo das relações exteriores, em artigo para leitores africanos. Mas o texto lembra que tratados como o de Pequim (1860) e o de Kulja (1851) representaram perdas humilhantes para os chineses, fatos hoje convenientemente esquecidos por ambos os lados.
Apesar da retórica de união, a desconfiança permanece.
Documentos vazados revelam que os serviços secretos russos alertam para o risco de espionagem chinesa, classificando a China como “o inimigo”.
Em 2024, o comércio entre os dois países chegou a 245 bilhões de dólares, um salto de 60% em dois anos. Mas há fissuras visíveis.
Feng Yujun, da Universidade de Pequim, escreveu que a Rússia quer “reconstruir um império e dominar a Eurásia”.
Criticou ainda o que chamou de “hostilidade profunda ao mundo externo e desejo insaciável de expansão territorial”, enraizados na tradição russa e em sua ideologia religiosa messiânica.
Frankopan mostra que mesmo vozes nacionalistas russas, como Alexander Dugin, colhem reações negativas quando tentam sugerir superioridade russa sobre a China.
Dugin chegou a ser lembrado por usuários chineses como alguém que “já defendeu o desmembramento da China”. A animosidade é real, ainda que disfarçada.
Para Frankopan, o crescimento dos Brics e a retórica da multipolaridade refletem essa tentativa de criar um novo centro de poder global. “É da Ásia — e especialmente da região das estepes eurasianas — que surgiram 85% dos impérios com mais de um milhão de quilômetros quadrados da história”.
Esse passado de dominação serve hoje como referência para justificar ambições geopolíticas renovadas.
No fundo, afirma o autor, o que sustenta a atual aproximação entre Rússia e China é a recusa conjunta da ordem liberal ocidental.
Cada lado adapta o passado conforme suas conveniências, usa a história para justificar o presente e tenta construir um novo consenso global onde seus interesses prevaleçam.
Quem é Peter Frankopan
Peter Frankopan é historiador britânico, professor de história global na Universidade de Oxford e diretor do Oxford Centre for Byzantine Research.
Ganhou notoriedade internacional com o livro The Silk Roads, traduzido para mais de 30 idiomas. Especialista em conexões entre Oriente e Ocidente, Frankopan é uma das principais referências em geopolítica histórica e transformações globais.
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Comentários (1)
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
06.07.2025 19:23A Rússia está caminhando para tornar-se um estado satélite da China ao romper os vínculos com a Europa.