“O Ocidente precisa de uma Rússia livre e democrática”
A ativista russa Yulia Navalnaya, viúva de Alexei Navalny, defende uma estratégia europeia de longo prazo para apoiar a sociedade civil e isolar Putin
Yulia Navalnaya, ativista russa e viúva do opositor Alexei Navalny, defendeu na revista The Economist que falta à Europa uma visão de longo prazo para lidar com seu país e com o período pós-Putin.
Ela afirma que a crença dos anos 1990 em uma transição automática para a democracia foi ingênua.
Segundo ela, sinais de alerta foram ignorados, como “o empobrecimento de dezenas de milhões por reformas econômicas malfeitas e uma privatização corrupta”.
Navalnaya descreve a captura do Estado por antigos burocratas e agentes de segurança.
Ela cita “as eleições fraudadas de 1996” e a “transferência de poder nos bastidores de Boris Yeltsin para Vladimir Putin em 1999” como marcos da erosão institucional.
Nos vinte anos seguintes, relata, o Ocidente assistiu à consolidação de uma ditadura.
Ela lista a anexação da Crimeia em 2014, a derrubada do voo MH17 e envenenamentos e assassinatos políticos, apontando a reação internacional como insuficiente.
A autora critica a resposta europeia que atingiu cidadãos comuns, mas poupou grandes fortunas.
Ela resume a contradição: “Leve €10 mil ao banco e você enfrenta perguntas sem fim. Leve €20 milhões e não há pergunta alguma”. Cidades como Londres e Zurique, diz, acolheram capitais russas.
Para Navalnaya, é falso que “tudo ficou claro” apenas em 2022, com a invasão em larga escala da Ucrânia.
Ela diz que “alguns, como meu marido, Alexei Navalny, entenderam desde o início” e avalia que, no começo dos anos 2010, a trajetória autoritária já era evidente.
A autora contesta a ideia de culpa coletiva de todos os russos.
Ela menciona críticas como a de 2023, quando a primeira-ministra da Estônia falou em “crime comum” do povo russo.
Em sua leitura, “por mais de 20 anos, Putin destruiu toda via de resistência política” sem consequências externas proporcionais.
Navalnaya defende uma estratégia que olhe décadas à frente e prepare a transformação do país.
Ela escreve que o sistema construído por Putin “inevitavelmente entrará em crise” e que é preciso estar pronto para ajudar a sociedade russa a mudar para melhor.
A autora rejeita a legitimação de um sucessor saído do próprio regime, que faria apenas reformas cosméticas. Sua síntese é direta: “O Ocidente precisa de uma Rússia livre e democrática”. Para ela, parceiros já existem na sociedade civil russa, dentro e fora do país.
Ela propõe apoio europeu a meios independentes, defensores de direitos e organizações que unem opositores da ditadura.
Pede distinguir “Putin e a Rússia, a ditadura putinista e a língua e cultura russas”, além de separar cúmplices de crimes de cidadãos comuns.
Navalnaya recomenda que a Europa comunique aos russos sua visão de mundo e caminhos de pertencimento a uma Europa livre. O objetivo seria oferecer horizonte concreto de cooperação e integração para além do regime atual.
Ela enumera proibições. “Não apoiem quem promove ódio a todos os russos”, escreve, por fortalecer a propaganda do Kremlin e desmobilizar quem resiste.
“Não normalizem o regime” nem tratem seus funcionários como representantes legítimos do povo.
A autora lembra que “a Rússia não vê eleições livres há mais de 30 anos”.
Por isso, autoridades atuais seriam “pessoas que tomaram o poder”, e não eleitos, afirma, pedindo que essa distinção guie decisões diplomáticas e econômicas.
Navalnaya critica a leitura única sobre os países pós-soviéticos. A guerra contra a Ucrânia demonstraria, segundo ela, que são “dois países diferentes, com destinos diferentes”, e não partes de um todo, como diz a propaganda do Kremlin.
Ela sustenta que o futuro da Ucrânia deve ser decidido com os ucranianos, inclusive sobre adesões e políticas comerciais.
O futuro da Rússia, por sua vez, deveria ser discutido com políticos e líderes civis russos que rejeitam dano, pobreza e desintegração do país.
A conclusão aponta para coordenação entre europeus e opositores do putinismo.
“Precisamos nos unir na luta contra Putin”, escreve Navalnaya, dizendo que só com apoio mútuo será possível vislumbrar “paz, estabilidade e segurança” após a vitória sobre o regime.
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