“O fim das ilusões progressistas”
John Gray, filósofo britânico, explica como a mistura de soft e hard power está mudando as regras da geopolítica – e por que isso pode redefinir a ordem mundial
O filósofo político britânico John Gray publicou, no New Statesman, artigo intitulado “A captura do soft power por Trump”, no qual examina como o presidente dos EUA está redefinindo a geopolítica ao combinar soft power (influência e persuasão) e hard power (coerção e força).
Segundo Gray, a narrativa de que “entramos em uma era governada pela força” não corresponde inteiramente à realidade. Para ele, a separação entre os dois tipos de poder nunca foi absoluta – e o líder americano tem usado essa flexibilidade a seu favor.
Gray argumenta que as tarifas comerciais impostas por Trump “caem em algum lugar no meio do espectro” entre os dois tipos de poder, pois foram empregadas para fins estratégicos não econômicos, como controle de fronteiras.
Enquanto os EUA gastaram vastos recursos militares no Iraque e no Afeganistão, apenas para acabar em “derrota e retirada”, Trump demonstrou uma abordagem mais eficaz ao usar ameaças econômicas para alcançar objetivos geopolíticos.
O autor cita como exemplo de soft power a recente visita do premiê britânico Keir Starmer a Washington, onde entregou a Trump um convite real para visitar o Reino Unido.
Apesar do gesto diplomático, o presidente teria ironizado a situação ao perguntar se os britânicos poderiam enfrentar a Rússia sozinhos.
Para Gray, “nenhuma lisonja simbólica pode alterar o fato da fraqueza britânica”, resultado de décadas de desinvestimento militar e de políticas que prejudicaram os próprios interesses do país.
Um caso emblemático dessa fraqueza, segundo Gray, é a decisão do governo britânico de devolver o arquipélago de Chagos a Maurício, apesar da presença estratégica da base americana de Diego Garcia.
Para o autor, o custo dessa concessão – um arrendamento de £9 bilhões – só favorece China e Irã, que têm crescente presença na região. Ele classifica a decisão como “um monumento ao culto moribundo do legalismo progressista”.
O filósofo também critica a política energética britânica e europeia, chamando a transição para energia limpa de “soft power negativo”.
A Alemanha, com sua Energiewende, teria “destruído sua base industrial” ao fechar usinas nucleares e de carvão, tornando-se dependente da energia russa antes da guerra na Ucrânia.
Gray observa que países do Sul Global moldam suas políticas energéticas segundo suas necessidades, sem se deixar influenciar por “posições messiânicas de políticos do primeiro mundo”.
Ele vê um cenário de realinhamento global: “uma nova era de guerras por recursos e alianças entre grandes potências começou, impulsionada pelo progresso tecnológico”.
Para Gray, o maior erro das elites progressistas foi desperdiçar o soft power ocidental.
Ele compara o cenário atual não a Munique em 1938, mas a Yalta em 1945, sugerindo que Trump busca redesenhar o mundo em moldes multipolares.
A ascensão da China também se encaixa nessa dinâmica.
Gray menciona o impacto da DeepSeek, um aplicativo de inteligência artificial chinês que “atingiu Wall Street como um míssil”, demonstrando que regimes autoritários podem inovar tecnologicamente sem serem democracias liberais.
Ele argumenta que “o mito da superioridade tecnológica ocidental” foi desmantelado e que a China fortalece sua posição ao ensinar sua população que sua civilização é superior à do Ocidente.
Trump, por sua vez, teria vencido as eleições ao rejeitar “a ideologia progressista que difamou e ridicularizou a civilização americana”.
Para Gray, ele canalizou “uma energia eufórica reprimida” nos anos de governo progressista, criando um movimento político invencível no curto prazo.
Essa euforia, alerta o autor, pode ser temporária. Ele menciona a recente ruptura entre Steve Bannon e Elon Musk como um sinal de fragmentação da coalizão trumpista, além da ameaça de um colapso da dívida pública americana.
Por fim, Gray conclui que, embora a “Pax Americana” tenha terminado, os EUA estão reafirmando sua primazia global sob Trump.
As elites progressistas, segundo ele, “trouxeram sua própria ruína” ao desperdiçar seu soft power em guerras inúteis, destruir suas indústrias em uma “cruzada energética insana” e perder décadas sem investir em hard power real.
Agora, restaria ao Ocidente apenas “sobreviver no mundo anárquico criado pela autossabotagem progressista”.
Quem é John Gray
John Gray é um filósofo e ensaísta britânico, especialista em teoria política e história das ideias.
Foi professor na London School of Economics e colaborador de publicações como The New Statesman e The Guardian.
Autor de obras influentes como Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals e False Dawn: The Delusions of Global Capitalism, ele é conhecido por seu pensamento crítico sobre o progressismo e por sua análise do colapso das utopias políticas modernas.
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