O bairro onde mais de um milhão de pessoas vivem sem água encanada, dividem banheiros e sustentam a cidade rica ao redor
A poucos quilômetros de prédios luxuosos, mais de um milhão de pessoas vivem entre casas apertadas, água paga, lixo acumulado e ausência do Estado.
A menos de 5 km do centro de Nairóbi, capital do Quênia, existe um lugar onde mais de um milhão de pessoas vivem em casas do tamanho de um quarto, compram água por galão e dividem um único banheiro com 40 vizinhos. Bem-vindo a Kibera, o maior assentamento informal da África e um dos retratos mais brutais da desigualdade urbana no mundo.
Um mar de chapas metálicas no meio da capital
Kibera é descrita por quem a visita como um “mar de chapas”, um território imenso de casas coladas umas nas outras, construídas com barro, metal, pedras e qualquer material que possa ser reaproveitado. As pedras são colocadas sobre os telhados para que o vento não leve as coberturas. O bairro se expande em uma área inclinada, como uma colina, e as vielas são tão estreitas e labirínticas que é fácil se perder. Há pontos onde o teto de uma casa fica no nível da rua de cima.
O nome Kibera vem de uma palavra núbia que significa “floresta”. O bairro surgiu ao redor de uma linha de trem durante o período colonial britânico, quando as terras foram cedidas aos núbios. Desde então, cresceu sem planejamento, sem infraestrutura pública e sem parar. Hoje, a terra pertence ao governo. As construções pertencem a proprietários privados que cobram aluguel dos moradores.

Como é a vida dentro de uma casa em Kibera
Uma casa típica em Kibera reúne sala, quarto e cozinha em um único espaço compacto. A cozinha pode ter meio metro quadrado. Um lençol faz as vezes de parede divisória. Quatro pessoas vivem nesse ambiente. O aluguel varia entre 2.500 e 5.000 xelins quenianos, dependendo do tamanho e da localização. As casas próximas ao rio são mais baratas e também as mais vulneráveis a enchentes e contaminação.
Não há água corrente. Os moradores armazenam água dentro de casa em recipientes e compram galões de 20 litros em pontos privados espalhados pelo bairro, pagando 10 unidades por galão. Quando a água acaba, acaba. Em muitos casos, a água usada para lavar roupa é reaproveitada para descarga ou limpeza. Não existe desperdício possível quando cada litro tem custo.
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Saneamento, lixo e os problemas que ninguém resolve
Esse é o ponto mais crítico de Kibera. A falta de saneamento básico não é apenas um desconforto, é uma ameaça direta à saúde de quem vive ali. As consequências aparecem nos dados e no cotidiano:
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube HiClavero mostrando como é a vida no maior e mais pobre bairro da África.
A desigualdade que dá para ver a olho nu
A cerca de 1 km de Kibera, anúncios de apartamentos de luxo prometem condomínios fechados, segurança e conforto. Um trabalhador que ganhasse entre 70 centavos e 1 euro por dia precisaria guardar todo o seu salário por aproximadamente 265 anos para comprar um desses imóveis. Não é metáfora. É uma conta simples que resume décadas de exclusão urbana.
A proximidade não é coincidência. Como explica o motorista Philip, morador de Nairóbi, trabalhadores de baixa renda precisam viver perto dos bairros onde prestam serviços domésticos, de construção e de segurança. Kibera existe, em parte, para sustentar o funcionamento dos bairros ricos que ficam do outro lado da colina.
O que Kibera tem que nenhum dado consegue medir
No meio de tudo isso, Kibera pulsa. O comércio nas ruas principais é intenso, com frutas, verduras, roupas, materiais de construção e pequenas oficinas funcionando todos os dias. Escolas criadas com doações oferecem alimentação, tablets, computadores e campos esportivos para crianças que, sem esses espaços, não teriam acesso a nada disso. Em uma das salas visitadas, uma professora ensina duas turmas ao mesmo tempo, com o quadro dividido entre o 1º e o 2º ano.
Kibera é a prova de que pobreza e comunidade não são a mesma coisa. As pessoas que vivem ali constroem redes de apoio, mantêm comércio vivo, criam escolas e cuidam umas das outras em um contexto onde o Estado praticamente não existe. Mas nenhuma resiliência comunitária substitui água encanada, saneamento, coleta de lixo e moradia digna. O que Kibera precisa não é de admiração, é de infraestrutura.
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