Novo estudo de Oxford revela que poluição de usinas a carvão anulou até um terço do crescimento da energia solar no mundo
A conta invisível que o carvão apresenta para cada painel solar do mundo.
A poluição de usinas a carvão reduziu a geração solar global em 5,8% em 2023, o equivalente a 111 terawatts-hora perdidos, segundo estudo da Universidade de Oxford e do University College London publicado na Nature Sustainability em maio de 2026. Essa perda anula sozinha quase um terço de toda a eletricidade que os novos painéis solares adicionam ao mundo a cada ano.
Como a poluição do carvão consegue reduzir a geração de energia solar?
O mecanismo passa pelos aerossóis, partículas minúsculas liberadas pela queima de carvão e outros combustíveis fósseis que ficam suspensas na atmosfera. Quando essas partículas se acumulam entre o sol e os painéis, formam uma barreira difusa que dispersa e absorve parte da radiação antes que ela chegue às células fotovoltaicas. O painel continua funcionando, mas converte menos energia do que converteria sob céu limpo.
O detalhe que torna o problema mais grave é geográfico. As regiões que mais instalam usinas solares são frequentemente as mesmas que mantêm grandes parques de usinas a carvão em operação. Carvão e solar crescem em paralelo, e cada nova usina termelétrica piora ativamente o ambiente em que os painéis ao redor tentam trabalhar.

Como os pesquisadores mediram essa perda em 140 mil instalações?
A equipe liderada pelo pesquisador Rui Song, do Departamento de Física da Universidade de Oxford e do Mullard Space Science Laboratory do UCL, mapeou mais de 140 mil instalações solares em todo o mundo com dados de satélite. Cada instalação foi cruzada com dados atmosféricos de concentração de aerossóis e processada por um modelo validado de geração solar.
Esse nível de granularidade é inédito. Estudos anteriores estimavam o impacto da poluição no solar em escala regional, com grandes margens de erro. O método do Oxford calculou perda instalação por instalação, produzindo o mapa mais preciso já feito sobre como a infraestrutura de combustível fóssil degrada ativamente as renováveis construídas para substituí-la.
Os números centrais do estudo colocados lado a lado:
| Indicador | Valor registrado (2023) | Equivalência prática |
|---|---|---|
| Perda global por aerossóis | 111 TWh | Geração de 18 usinas a carvão de médio porte |
| Queda percentual na geração solar | 5,8% | Perda média em cada painel ativo no mundo |
| Ganho anual com novos painéis (2017-2023) | 246,6 TWh/ano | Referência para calcular o terço anulado |
| Perda anual por aerossóis (instalações existentes) | 74,0 TWh/ano | Quase um terço do ganho com novos painéis |
Onde o impacto é mais severo e por quê a China aparece no centro?
A China gerou 793,5 TWh de energia solar em 2023, cerca de 41,5% do total mundial. Mas o país também opera o maior parque termelétrico a carvão do planeta, e as duas infraestruturas cresceram lado a lado, muitas vezes literalmente na mesma região. O resultado é que a poluição produzida pelas usinas reduziu parte expressiva do que os painéis deveriam ter gerado.
O Paquistão apresentou o caso mais extremo medido pelo estudo, com queda de 15,1% na geração solar em 2023 por causa dos aerossóis, incluindo emissões de fornos de tijolos e veículos além das usinas a carvão. Um país que apostou pesado em solar para reduzir importações de combustível enfrenta uma erosão constante da sua própria geração renovável.
Os fatores que determinam onde a perda é maior:
- Proximidade física entre usinas termelétricas e instalações solares na mesma bacia atmosférica.
- Densidade industrial e de tráfego na região, que somam aerossóis de múltiplas fontes.
- Padrões de vento que carregam partículas de carvão para regiões com alta concentração de painéis.
- Umidade relativa alta, que faz os aerossóis absorver água e ampliar o bloqueio de radiação solar.
O que esse estudo muda na forma de calcular o valor real da transição energética?
A conta da transição energética costuma comparar capacidade instalada de solar com capacidade instalada de carvão, como se fossem grandezas independentes. O estudo de Oxford mostra que não são. Cada megawatt de carvão que permanece ligado reduz ativamente o rendimento de cada megawatt solar nas proximidades, uma interação física que os modelos de política energética raramente incluem.
O professor Myles Allen, do Departamento de Física de Oxford e fundador do Oxford Net Zero, foi direto: o carvão continua barato porque seus custos reais ficam escondidos. Parte desses custos aparece agora nas contas de energia solar de quem instalou painéis sob céu poluído, sem saber que estava pagando por isso.

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Quais decisões de política energética esse dado deveria mudar?
A limitação do estudo é clara: ele mede a perda, não prescreve a solução. Fechar usinas a carvão aumentaria a geração solar em regiões hoje penalizadas pela poluição, mas decisões de fechamento dependem de políticas nacionais, contratos de energia e pressão política que vão além da ciência atmosférica.
O que o dado já muda é a estimativa de retorno de novos investimentos em solar. Instalar painéis em regiões com alta concentração de emissões de carvão entrega menos energia do que os modelos convencionais projetam. Ignorar isso leva a superestimar o avanço da transição energética e a subestimar o custo real que o carvão ainda impõe ao mundo.
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