Muralha Verde da África, iniciada há 19 anos e 4,4 vezes maior que a Alemanha, gerou 4,6 milhões de empregos mas tem só 1,66% da área em restauração
Relatório da ONU de agosto de 2026 mostra 1,66 milhão de hectares em recuperação no Sahel, diante de uma meta de 100 milhões até 2030
A Muralha Verde da África, lançada em 2007 pela União Africana e pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), ocupa hoje uma faixa de 156 milhões de hectares no sul do Saara. A área, informada pela UNCCD em agosto de 2026, é cerca de 4,4 vezes o território da Alemanha, que tem 357.683 km², segundo o órgão alemão de estatística Destatis.
Dezenove anos depois do início, o balanço mais recente da ONU mostra um projeto com resultados desiguais. Os projetos que enviam dados somam 4,6 milhões de empregos criados, quase metade da meta para 2030, mas apenas 1,66 milhão de hectares em restauração, diante de uma meta de 100 milhões.
O tamanho da Muralha Verde em números
O desenho original, descrito pela UNCCD em seu relatório de 2020, prevê um cinturão de 8 mil km de comprimento por 15 km de largura. Ele vai da bacia do rio Senegal, no oeste, até o Chifre da África, no leste.

São 11 países fundadores, segundo a UNCCD:
- Burkina Faso, Chade, Djibuti e Eritreia
- Etiópia, Mali, Mauritânia e Níger
- Nigéria, Senegal e Sudão
Para comparar, a Alemanha soma cerca de 35,8 milhões de hectares, de acordo com tabela do Destatis publicada pela Agência Federal do Meio Ambiente da Alemanha. Dividindo 156 milhões por 35,8 milhões, chega-se à proporção de 4,4 vezes.
As metas para 2030 e o que já foi feito
Até 2030, o plano oficial da UNCCD é restaurar 100 milhões de hectares de terra degradada, capturar 250 milhões de toneladas de carbono e criar 10 milhões de empregos verdes. A meta social é mudar a vida de 100 milhões de pessoas.
O relatório de cinco anos do Acelerador da Grande Muralha Verde, divulgado pela UNCCD em 6 de agosto de 2026, traz os números abaixo:
| Indicador | Resultado reportado | Meta para 2030 |
|---|---|---|
| Área em restauração | 1,66 milhão de hectares | 100 milhões de hectares |
| Carbono | 24 milhões de t de CO₂ equivalente | 250 milhões de t |
| Empregos | 4,6 milhões | 10 milhões |
| Pessoas beneficiadas | 46 milhões | 100 milhões |
A própria UNCCD faz uma ressalva. O observatório da iniciativa acompanha mais de 389 projetos, mas menos de 90 enviam dados no padrão comum, o que deixa parte do avanço fora da conta.
Por que o avanço é lento
Em 2020, a UNCCD já tinha admitido que só 4% da meta estava cumprida na metade do prazo. A instituição cita como entraves a falta de dados completos, a coordenação entre governos e doadores e o tempo para transformar promessas em obra no campo.
Na cúpula One Planet, em 2021, parceiros técnicos e financeiros anunciaram mais de US$ 19 bilhões, segundo a UNCCD. O Acelerador nasceu naquele ano para coordenar os parceiros, rastrear o dinheiro e medir resultados.
Para os próximos cinco anos, a UNCCD aposta em títulos verdes, créditos de carbono e financiamento misto, além de gestão compartilhada de terra e água entre países vizinhos. O O Antagonista já mostrou como a barreira de vegetação foi pensada contra o avanço do Saara.
Mais que uma fileira de árvores
A UNCCD descreve hoje a Muralha Verde como um mosaico de fazendas, sistemas de água e comunidades, e não como uma linha contínua de árvores. Em Garaké, no Níger, segundo o relatório, a limpeza de uma lagoa tomada por plantas invasoras permitiu ao agricultor Abdoulaye Aboubacar plantar arroz, milho, cana e batata.
No Mali, a cooperativa de mulheres AMAKENE, em Bandiagara, liderada por Florence Banou, de 55 anos, recebeu ferramentas e treinamento e ganhou da prefeitura 4 hectares para ampliar a produção, de acordo com a UNCCD. No Chade, mulheres passaram a instalar e consertar painéis solares, e os projetos reportaram 2.315 MWh de energia limpa.
A iniciativa africana costuma ser comparada à da China, onde 66 bilhões de árvores foram plantadas contra o avanço do deserto.
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