Milei reabre Casa Rosada à imprensa — com restrições
Dois repórteres permanecem impedidos de entrar na Casa Rosada; entidade de imprensa critica medidas do presidente Milei
Nesta segunda-feira, 4, o governo argentino voltou a permitir o acesso de jornalistas à sede do Executivo, após mais de uma semana e meia de bloqueio, período sem equivalente na história democrática recente do país.
A reabertura, no entanto, veio acompanhada de novas regras que limitam a circulação dos profissionais dentro do prédio, e ao menos dois repórteres seguem proibidos de entrar na Casa Rosada.
Restrições dentro do palácio
Correspondentes que ingressaram no edifício relataram retenção de credenciais, escolta permanente por agentes de segurança e bloqueio de acesso a corredores onde, historicamente, obtinham informações sobre reuniões e movimentações de autoridades.
O repórter Fabian Waldman descreveu a situação em rede social: “O governo decidiu que os jornalistas que circulam pelos corredores do Balcarce 50 há anos não poderão mais fazê-lo”.
A Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina (Adepa) informou que dois profissionais permanecem vetados: Nacho Salerno, repórter que filmou áreas internas da sede presidencial com óculos inteligentes, e Luciana Geuna, apresentadora da emissora Todo Noticias que exibiu as imagens.
A organização afirmou que “o trabalho dos jornalistas na sede do Estado não é um privilégio da mídia, mas um direito de seus leitores — e da cidadania como um todo — de ter acesso a informação pública”.
A origem do conflito
O fechamento da sala de imprensa foi motivado pela divulgação das gravações feitas por Salerno com o acessório tecnológico. O governo Milei classificou o episódio como uma violação de segurança e acionou a Casa Militar, agência responsável pela proteção do presidente, que apresentou queixa formal contra os dois jornalistas.
O próprio Milei compartilhou em rede social uma imagem adulterada mostrando Geuna com algemas e uniforme de detento.
A apresentadora rebateu as acusações ao vivo: “Cada uma das imagens que gravamos está em áreas que são repetidas milhares de vezes nas redes sociais, quando os alunos fazem visitas guiadas à Casa Rosada e, com seus celulares, gravam a visita. Elas também aparecem no Google Street View”.
Governo defende novo protocolo
O chefe de gabinete Manuel Adorni recebeu os jornalistas em entrevista coletiva e defendeu as medidas como parte de um “novo protocolo” destinado a “fazer cumprir a norma, não censurar a liberdade de expressão”. Ao ser questionado sobre os dois profissionais ainda impedidos de entrar, afirmou que “todos os indivíduos credenciados e com a documentação em ordem não devem ter problemas para entrar”.
Adorni comparou o caso ao uso de óculos de gravação na Casa Branca, nos Estados Unidos, para justificar a reação do governo. O episódio americano ao qual se referiu, no entanto, não resultou em consequências imediatas ao repórter envolvido — um jornalista britânico que usou o equipamento em duas entrevistas coletivas em janeiro deste ano.
Queda no ranking de liberdade de imprensa
Na semana passada, a ONG Repórteres Sem Fronteiras divulgou seu índice anual e registrou que a Argentina recuou 11 posições, ocupando o 98º lugar entre 180 países avaliados — o resultado mais baixo desde 2002, quando a série histórica teve início.
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