Maior máquina de fusão do mundo reúne um milhão de componentes para tentar reproduzir processo que alimenta o Sol
O projeto tenta criar na Terra a mesma reação que mantém o Sol ativo
Como fazer na Terra o mesmo processo que faz o Sol brilhar há 4,6 bilhões de anos? O ITER, maior máquina de fusão nuclear do planeta, junta 34 países e cerca de 1 milhão de componentes no sul da França para tentar responder essa pergunta.
O que é o ITER e onde ele fica?
O ITER, sigla em latim que quer dizer “o caminho”, é um reator experimental de fusão nuclear em construção em Cadarache, no sul da França. Ele está sendo montado numa área de 180 hectares e ocupa 39 prédios, segundo a ITER Organization.
A máquina central pesa cerca de 23 mil toneladas e tem 30 metros de largura por 30 de altura. Ela é um tokamak, tipo de reator em formato de rosquinha que usa campos magnéticos para segurar o gás super-quente onde a fusão acontece.

Como o ITER pretende reproduzir o processo do Sol?
No Sol, a fusão acontece quando núcleos de hidrogênio se juntam sob pressão gigantesca e viram hélio, liberando energia. Na Terra, sem essa pressão, o jeito é aumentar a temperatura. O ITER vai aquecer o gás a cerca de 150 milhões de °C, dez vezes mais quente que o centro do Sol.
Nessa temperatura, o gás vira plasma, o 4º estado da matéria. Os 4 pilares que sustentam o experimento:
Por que a montagem virou um quebra-cabeça de 1 milhão de peças?
Cada país envolvido no ITER fabrica uma parte específica da máquina. A Coreia do Sul constrói o vaso de vácuo, o Japão e a Itália fazem as bobinas magnéticas, a China monta os alimentadores, e a Índia entrega o criostato, uma câmara-frigorífico gigante que envolve todo o reator.
Segundo a Fusion for Energy, agência da União Europeia responsável pela contribuição do bloco, o reator conta com cerca de 1 milhão de componentes formados por 10 milhões de peças menores. Veja como os países dividem a conta:
| Membro | Fatia do custo | Papel |
|---|---|---|
| União EuropeiaAnfitrião do projeto | 45,6% | Líder |
| China, Índia, JapãoContribuição em equipamentos | 9,1% cada | Parceiros |
| Coreia do Sul, RússiaComponentes de vácuo e magnéticos | 9,1% cada | Parceiros |
| Estados Unidos12 sistemas via Oak Ridge Lab | 9,1% | Parceiro |
Quando o ITER vai ligar de verdade?
O plano original previa a 1ª formação de plasma em dezembro de 2025. Em julho de 2024, o Conselho do ITER aprovou um novo cronograma. A operação inicial com deutério passou para 2035, e a fase completa com deutério e trítio, para 2039, segundo a World Nuclear News.
O motivo foi somar problemas: pandemia de covid, trincas nos setores do vaso de vácuo e a decisão de instalar todos os sistemas antes da 1ª partida, não em etapas. O ganho é chegar direto na operação científica de verdade, sem paradas para retrabalho.

Por que a fusão nuclear vale tanto esforço?
A fusão é o oposto da fissão, que é o que já funciona em usinas nucleares comuns. Enquanto a fissão quebra átomos pesados como urânio e deixa lixo radioativo por milhares de anos, a fusão junta átomos leves e gera resíduos com meia-vida bem menor. Não solta gases de efeito estufa nem tem risco de reação em cadeia descontrolada.
O combustível é abundante: o deutério vem da água do mar, e o trítio pode ser produzido dentro do próprio reator a partir de lítio. Se o ITER provar que a fusão em escala industrial é viável, o próximo passo é o DEMO, protótipo já em estudo em vários países que deve produzir eletricidade para valer.
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