Maior coleção de contas do mundo é achada em túmulo antigo
Descoberta de milhares de minúsculas contas de conchas costuradas em vestimentas funerárias revela detalhes sobre status, trabalho coletivo e crenças espirituais desse povo antigo.
Debaixo da atual cidade de Valencina de la Concepción, no sudoeste da Espanha, arqueólogos encontraram uma tumba monumental conhecida como Tholos de Montelirio. Este sítio arqueológico, datado entre 2875 a.C. e 2635 a.C., oferece um raro vislumbre sobre a organização social, os rituais e a economia de uma comunidade da Idade do Cobre.
A descoberta de milhares de minúsculas contas de conchas costuradas em vestimentas funerárias revela detalhes sobre status, trabalho coletivo e crenças espirituais desse povo antigo.
Pesquisadores de diferentes universidades e museus espanhóis analisaram uma câmara funerária localizada a cerca de 100 metros do túmulo conhecido como “Dama de Marfim”. Nessa câmara, estavam os restos mortais de vinte pessoas, das quais quinze foram identificadas como mulheres.
Sob camadas de terra, foram encontrados mais de 270 mil discos de conchas, cuidadosamente organizados em túnicas, saias e véus que um dia brilharam sob a luz, indicando uma produção artesanal de grande escala e alto valor simbólico.
Como eram produzidas as vestimentas com contas de conchas?
A confecção dessas vestimentas exigiu uma mobilização impressionante de recursos e mão de obra. Cada conta, com menos de um centímetro de diâmetro, era feita a partir de conchas de vieira (Pecten maximus) coletadas na costa atlântica, a vários quilômetros do local da tumba.
O processo de fabricação incluía corte, perfuração e polimento, levando cerca de dez minutos por peça. Para produzir todas as contas encontradas em apenas uma câmara, seriam necessários dez artesãos trabalhando em tempo integral durante mais de duzentos dias consecutivos.
Esse esforço coletivo só foi possível graças a uma sociedade capaz de sustentar especialistas afastados das atividades agrícolas por longos períodos.
O fornecimento de alimentos, a organização do transporte das conchas e a coordenação do trabalho artesanal sugerem uma estrutura social hierarquizada, com líderes comunitários capazes de planejar e executar projetos de grande porte.
A escolha de utilizar conchas do mar também reforça a conexão simbólica entre o grupo e o ambiente costeiro, além de demonstrar o alcance das redes de troca e circulação de matérias-primas.
Qual era o significado social e simbólico das contas de conchas?
As vestimentas encontradas no Tholos de Montelirio não eram usadas no cotidiano. Réplicas modernas mostraram que os trajes eram pesados, rígidos e produziam sons ao serem movimentados, indicando que provavelmente eram reservados para cerimônias especiais.
O uso dessas roupas durante rituais funerários transformava materiais simples, como conchas, pigmentos e fibras vegetais, em símbolos de autoridade e prestígio.
- Hierarquia interna: As contas mais elaboradas estavam associadas a duas mulheres posicionadas próximas a um pequeno altar, sugerindo que ocupavam papéis de liderança ou destaque espiritual.
- Identidade e poder: O padrão e a padronização das contas podem ter funcionado como marcadores de identidade ou até mesmo como uma forma primitiva de moeda, acessível apenas a famílias de alto status.
- Gênero e liderança: A predominância feminina na câmara e a presença da “Dama de Marfim” nas proximidades indicam que mulheres exerciam funções de comando e influência na comunidade.
World's largest bead collection found in 5,000-year-old Spanish tomb in Montelirio Tholo https://t.co/xlnfN6jCkz
— Hindustan Times (@htTweets) June 30, 2025
O que as descobertas na tumba de Montelirio revelam sobre a sociedade da Idade do Cobre?
Os dados obtidos no Tholos de Montelirio apontam para uma sociedade complexa, com divisão de trabalho, especialização artesanal e organização centralizada.
A capacidade de mobilizar recursos para criar trajes tão elaborados sugere a existência de excedentes agrícolas e de uma elite que controlava a produção e a distribuição de bens de prestígio. A escolha das conchas como matéria-prima reforça a importância dos laços com o litoral e com rotas de comércio distantes.
Além disso, a distribuição dos adornos e a posição dos corpos dentro da tumba revelam nuances sobre papéis sociais, gênero e autoridade.
A associação de mulheres a objetos de alto valor e a locais de destaque dentro da câmara desafia ideias tradicionais sobre o predomínio masculino em sociedades pré-históricas europeias, mostrando que a liderança feminina era possível e reconhecida.
Como a tumba de Montelirio contribui para o entendimento do passado?
O estudo das contas de conchas e das vestimentas funerárias de Montelirio amplia o conhecimento sobre as formas de organização social, economia e espiritualidade durante a Idade do Cobre na Península Ibérica.
A análise detalhada desses artefatos demonstra como materiais considerados simples podem adquirir grande significado quando associados ao trabalho coletivo e à construção de identidades.
A tumba, com seu acervo de adornos e restos humanos, permanece como um testemunho da criatividade, da complexidade e das relações de poder de uma comunidade que deixou sua marca há mais de quatro mil anos.
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