Justiça da Argentina veta divulgação de áudios de Karina Milei
Decisão atinge também redes sociais; governo fala em “operação de inteligência ilegal” e diz que gravações ocorreram na Casa Rosada
A Justiça argentina determinou a suspensão da divulgação de gravações atribuídas a Karina Milei, irmã do presidente Javier Milei e secretária-geral da Presidência.
A ordem alcança qualquer meio de publicação, inclusive redes sociais e plataformas digitais, após o Executivo apresentar notícia-crime e alegar que as escutas foram feitas ilegalmente dentro da Casa Rosada. A decisão foi assinada pelo juiz Alejandro Patricio Maraniello.
Segundo o governo argentino, o episódio não é um vazamento convencional, mas uma “operação de inteligência ilegal” destinada a constranger o Poder Executivo em período eleitoral.
O porta-voz presidencial, Manuel Adorni, afirmou que conversas privadas de Karina Milei e de outros funcionários foram gravadas, manipuladas e difundidas para desestabilizar a administração.
O Executivo sustenta que as captações ocorreram em dependências oficiais sem autorização.
O caso ganhou impulso com áudios atribuídos a Diego Spagnuolo, ex-diretor da Agência Nacional de Deficiência (Andis) e ex-advogado pessoal de Javier Milei, que descrevem um suposto esquema de propinas na compra de medicamentos para pessoas com deficiência.
De acordo com o conteúdo das gravações em análise, farmacêuticas pagariam até 8% sobre contratos públicos, com menção a 3% a 4% destinados a Karina Milei e a intermediação do subsecretário de Gestão Institucional, Eduardo “Lule” Menem.
As falas citam a distribuidora Suizo Argentina como canal de coleta e distribuição, com valores mensais entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão.
A ordem judicial determina a suspensão de novas publicações dos áudios atribuídos a Karina Milei “por qualquer meio”, inclusive redes sociais.
O magistrado atendeu a pedido do Executivo, que apontou captação ilegal de conversas em área de trabalho do governo. A decisão trata do modo de obtenção e difusão do material, conforme a petição apresentada pelo governo.
Em paralelo, autoridades cumpriram mais de 20 mandados de busca e apreensão em endereços residenciais, na sede da Andis e na Suizo Argentina.
Segundo relatórios das operações, foram apreendidos US$ 266 mil em espécie, 7 milhões de pesos argentinos, 15 caixas de documentos, celulares e mídias. Emmanuel Kovalivker, ligado à Suizo Argentina, foi encontrado com dólares em envelopes ao tentar deixar o local.
O Ministério da Segurança informou ter solicitado mandados contra o canal Carnaval Stream, responsável por divulgar parte das gravações.
A pasta afirma que o objetivo é avançar na identificação de responsáveis pela coleta e disseminação do material. As medidas fazem parte do inquérito aberto após a representação do governo.
O quadro tem efeito direto no calendário eleitoral.
A administração Milei enfrenta eleições legislativas na província de Buenos Aires em 7 de setembro e as nacionais de meio mandato em 26 de outubro.
Levantamento da AtlasIntel indica 51,1% de desaprovação e 43,6% de aprovação ao governo, pior resultado desde a posse, segundo a pesquisa.
Indicadores de humor econômico também refletem a crise política.
Em agosto, um índice de confiança no governo recuou 13,6%, para 2,12 pontos, enquanto o risco-país voltou a 829 pontos básicos, encarecendo o acesso a financiamento externo.
A tensão aumentou com episódios de violência contra a comitiva presidencial.
Em 28 de agosto, manifestantes lançaram pedras e garrafas contra a caravana de Javier Milei durante agenda em Lomas de Zamora, o que levou à retirada do presidente do local. No dia seguinte, Karina Milei deixou às pressas um evento em Corrientes após confrontos nas proximidades.
Até aqui, o Executivo nega as acusações e reforça a tese de espionagem ilegal.
A Justiça mantém a suspensão da divulgação dos áudios enquanto reúne elementos sobre a origem das gravações e as condutas atribuídas aos envolvidos.
As diligências seguem em andamento, com apreensões, oitivas e análise de material recolhido.
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Comentários (1)
Márcio Roberto Jorcovix
02.09.2025 08:35Que pena. Na Argentina como no Brasil soa os políticos sendo políticos na sua essência, ou seja, ladroes indomáveis. Tem jeito não