Jornalistas organizam vaquinha para salvar imprensa na Venezuela
O ditador Nicolás Maduro recebeu a herança maldita de Hugo Chávez e intensificou a perseguição aos jornalistas venezuelanos
Qualquer jornalista honesto da América Latina, seja conservador ou progressista, deveria reconhecer sem dificuldade que a imprensa na Venezuela de Maduro enfrenta censura, perseguição, ameaças físicas e morais e dificuldades de financiamento. Desnecessário esclarecer, mas esclareço, que por “imprensa” pressupomos imprensa não alinhada ao ditador.
Em resposta a essa situação crítica – sejamos mais claros: em resposta à ditadura latinosocialista – uma iniciativa de solidariedade emergiu, unindo vozes de jornalistas, artistas e influenciadores em um evento online. A plataforma de mídia Connectas organizou, no último 17 de maio, um “teleton”, com o objetivo de arrecadar fundos para apoiar veículos de comunicação não-estatais que resistem no país.
O evento, batizado de “Vaca Midiática”, utilizou um termo comum no espanhol venezuelano (também no português brasileiro, no diminutivo “vaquinha”) para campanhas de arrecadação coletiva, geralmente associadas a celebrações onde todos contribuem.
Os recursos levantados destinam-se a garantir o pagamento de salários de profissionais, garantir a segurança das equipes, modernizar ferramentas tecnológicas e narrativas, além de oferecer treinamento para jornalistas.
A transmissão de quase quatro horas foi realizada ao vivo de um estúdio em Miami, com links para diversas partes do mundo, e contou com a participação de venezuelanos baseados fora do país. Mensagens de apoio e conscientização foram amplamente divulgadas nas redes sociais, alcançando interessados no jornalismo latino-americano.
A crise e a resistência jornalística
A situação do jornalismo na Venezuela tem sido objeto de denúncias por anos, com organizações não governamentais reportando o fechamento e o bloqueio sistemáticos de portais de notícias “desalinhados” ideologicamente com o governo. No entanto, o cenário se agravou significativamente após as eleições presidenciais de 2024, com o aumento da perseguição e criminalização da profissão, somado ao corte de financiamento internacional, levando o jornalismo independente a uma situação inviável.
Muitos dos participantes da “Vaca Midiática”, como o jornalista César Batiz, diretor do El Pitazo, atuam a partir do exílio.
Durante o teleton, Batiz destacou a falta de liberdade que seus colegas enfrentam na Venezuela: “Estamos dando a cara por eles”, afirmou, ressaltando que o esforço é em apoio aos profissionais que continuam trabalhando no país, divulgando informações apesar de bloqueios, perseguições, censura e pressões. Segundo Katherine Pennacchio, essa mobilização externa é crucial para apoiar a imprensa que atua sob tais restrições.
Carlos Eduardo Huertas, diretor da Connectas, organizadora do evento, falou sobre a perseverança dos jornalistas venezuelanos, afirmando que o jornalismo no país mantém sua paixão, coragem, profissionalismo – e até mesmo seu senso de humor. Ele lembrou o popular ditado venezuelano “mano, tengo fe” (“irmão, tenho fé”), para ilustrar o espírito de esperança.
O evento não foi apenas um espaço para arrecadação, mas também uma demonstração de união e aliança. “O objetivo principal da Vaca Mediática não é a arrecadação. É o começo de algo maior”, disseram membros da equipe à LatAm Journalism Review. Eles enfatizaram que a colaboração entre os participantes é fundamental para superar a censura e aumentar a segurança dos profissionais.
Mobilização de várias frentes
Renomados defensores dos direitos humanos e jornalistas latino-americanos participaram da “Vaca Midiática”, além de artistas e comediantes venezuelanos de diferentes gerações.
Entre os primeiros a mostrar seu engajamento estiveram os integrantes do podcast El Cuartico, que utiliza informações sobre a Venezuela em seus episódios e reconhece a crescente dificuldade em obter dados confiáveis.
Chucho Roldán, um dos apresentadores do podcast, destacou a importância do jornalismo para documentar a história e evitar que os registros se percam, considerando essa perda “extremamente grave”.
Outros participantes incluíram o locutor e comediante Luis Chataing, a atriz Carolina Perpetuo e o apresentador Nelson Bustamante, diretamente do estúdio em Miami. Participações especiais vieram de personalidades como o escritor Leonardo Padrón, o poeta Alberto Barrera Tyszka, a cantora Judy Buendia, a atriz Juliet Lima e os comediantes Laureano Marquez e Ricardo del Bufalo.
A cantora Laura Guevara contribuiu com uma canção sobre resiliência e a necessidade humana de expressão; o radialista Eli Bravo fez uma doação ao vivo e lembrou que o jornalismo independente precisa de apoio financeiro para se sustentar.
Os beneficiários diretos da “Vaca Midiática” são 15 veículos de comunicação da Venezuela. Conheça os sites que denunciam a opressão e fazem jornalismo independente:
Instituto Prensa y Sociedad Venezuela (Ipys)
Servicio de Información Pública
Como ajudar?
É importante notar que nenhum desses veículos exige pagamento para acesso ao seu conteúdo. A informação que eles fornecem ao público é totalmente gratuita.
Para aqueles interessados em contribuir, as doações podem ser feitas diretamente pelo site vacamediatica.com. Há possibilidade de doar anonimamente, e também a opção de direcionar o valor para um veículo ou organização em especial.
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Comentários (1)
Marcia Elizabeth Brunetti
24.05.2025 08:16Nossos famosos artistas que “lutam” pela liberdade de imprensa e contra a repressão deveriam fazer um show para ajudar nessa vaquinha, não?