Jornalista que enfrenta censura na Venezuela é premiado
Veículo independente luta para sobreviver em meio às pressões e ameaças da ditadura venezuelana
O jornalista venezuelano César Batiz, fundador e líder do veículo digital El Pitazo, será agraciado com o Prêmio Knight 2025 do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) em novembro, em cerimônia que acontecerá na cidade de Washington, D.C.. O reconhecimento celebra a “coragem excepcional” e a perseverança de Batiz na exposição de “transgressões em ambientes incrivelmente hostis à imprensa”. Batiz, que está exilado há três anos, dedica a honraria ao esforço coletivo de sua equipe.
Desafios superados com criatividade e trabalho em equipe
Antes de cofundar o El Pitazo, Batiz se destacou como jornalista investigativo na Cadena Capriles, abordando temas de corrupção nos setores petrolífero e elétrico durante o governo do ditador Hugo Chávez. Sua saída da Capriles, devido à mudança editorial, o levou ao empreendedorismo, uma resposta ao fechamento de veículos.
Em dezembro de 2014, Batiz e sua equipe iniciaram o El Pitazo, inicialmente com canais no YouTube e Facebook, lançando o site em abril de 2015. O portal rapidamente prosperou, mas em 2017, com cerca de 100 mil usuários únicos, começou a sofrer ataques e bloqueios, exigindo novas formas de alcançar o público. Batiz sintetizou a resiliência: “Nos fecharam a porta, pegamos um cinzel e um martelo, e abrimos novas janelas”.
Na falta de recursos, a equipe mostrou engenhosidade. O grupo expandiu a presença além do digital, conquistando um espaço na Rádio Capital, além de outras iniciativas, como a formação de centenas de “infocidadãos” através de workshops – pessoas que, sem serem jornalistas, reportam acontecimentos em suas comunidades.
Além disso, o El Pitazo criou canais no Telegram e grupos no Facebook para denúncias, explorou o jornalismo performático e mantém a comunicação via WhatsApp. Essa capacidade de adaptação e ênfase no trabalho em equipe são, para Batiz, a base de seu sucesso. Ele afirmou: “Embora seja um reconhecimento pessoal e da minha trajetória, teria sido impossível obtê-lo sem uma equipe. Uma equipe que me deu confiança suficiente para propor ideias, ser resiliente e criativo”.
Perseverança em meio a adversidades e o olhar para o futuro
Apesar dos êxitos em inovação, o cenário para o jornalismo independente na Venezuela permanece desafiador. O El Pitazo enfrenta uma drástica redução de pessoal, passando de 56 jornalistas para 16 colaboradores, todos operando remotamente. Essa diminuição é multifatorial, devido a cortes em financiamentos externos, à crise no mercado publicitário venezuelano e às mudanças em algoritmos de plataformas digitais, segundo Batiz. A busca por equilíbrio financeiro é árdua, com diversas tentativas como doações, assinaturas e publicidade. Uma nova iniciativa é um aplicativo para anúncios classificados, visando renda extra.
A pressão governamental é constante. Batiz relatou a debandada de grandes anunciantes devido a supostas ameaças oficiais e a fontes, ressaltando o aumento da “violência do Estado”. O acesso a informações públicas é limitado, e a relutância de fontes em se manifestar publicamente, especialmente em temas sensíveis como economia e saúde, agrava o cenário. “Temos uma grande capacidade de resiliência e inovação, mas me preocupam as restrições às fontes porque a violência do Estado é ainda maior”, expressou Batiz.
O jornalista, contudo, acredita no jornalismo venezuelano, salientando seu impacto regional via alianças e colaborações. Ele reconhece as dificuldades diárias dos jornalistas no país: “É difícil fazer jornalismo na Venezuela porque os jornalistas não se dedicam apenas ao jornalismo”, disse Batiz. “Os jornalistas precisam descobrir como encontrar remédios para o pai, para a mãe, para os familiares doentes, como resolver a questão da comida, serviços públicos, educação e ainda precisam fazer seu trabalho da melhor forma possível”.
A relevância do trabalho é reiterada por prêmios como o Ortega y Gasset (2019) e o Rei da Espanha de Jornalismo (2025), ambos pelo El Pitazo via ‘Operación Retuit’, uma aliança de veículos venezuelanos, mesmo sob severas restrições.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)