Jogadoras do Irã são vistas como “traidoras em tempo de guerra”
Cinco atletas iranianas obtêm vistos humanitários na Austrália após se recusarem a entoar o hino nacional em partida da Copa da Ásia
Cinco atletas da seleção feminina de futebol do Irã receberam vistos humanitários do governo australiano e não embarcaram de volta ao seu país após a eliminação da equipe na Copa da Ásia. A decisão foi confirmada pelo ministro da Imigração da Austrália, Tony Burke, na manhã desta terça-feira, 10.
As jogadoras foram identificadas como Fatemeh Pasandideh, Zahra Ghanbari, Zahra Sarbali, Atefeh Ramazanzadeh e Mona Hamoudi.
O episódio teve origem no dia 4 de março, quando a equipe iraniana ficou em silêncio durante a execução do hino nacional, antes da partida contra a Coreia do Sul. O gesto foi interpretado como protesto e desencadeou reações no Irã. Um comentarista alinhado ao regime classificou as atletas como “traidoras em tempo de guerra”, e cobrou punições.
A fuga e os vistos
Diante do risco que o retorno ao país representaria, as cinco jogadoras deixaram o hotel da equipe na segunda-feira, 9, e foram conduzidas pela polícia australiana a um local não divulgado. Burke afirmou que se reuniu com elas e aprovou os pedidos de visto durante a madrugada.
O visto humanitário australiano garante proteção permanente a refugiados e pessoas em situação de vulnerabilidade, com direito a residir, trabalhar e estudar no país. O primeiro-ministro Anthony Albanese confirmou a concessão dos documentos.
“Elas querem deixar claro que não são ativistas políticas. São atletas que querem estar seguras”, declarou Burke ao anunciar a decisão. O ministro acrescentou que as demais integrantes da delegação foram informadas de que também podem permanecer na Austrália, caso desejem.
Pouco após a saída das cinco atletas do hotel, a BBC registrou supervisores da delegação iraniana circulando pelo estabelecimento à procura delas. As jogadoras, no entanto, já haviam partido.
Pressão, silêncio e hinos cantados
O restante da equipe seguiu para o Aeroporto de Gold Coast, em Queensland, e depois para Sydney. A técnica Marziyeh Jafari foi brevemente retida por dezenas de manifestantes que tentaram convencer as demais atletas a não embarcar. Alguns deitaram no chão para impedir o avanço do ônibus. As jogadoras observaram a cena de dentro do veículo.
Nas duas partidas seguintes, contra a Austrália e as Filipinas, a equipe iraniana entoou o hino e fez a saudação protocolar. O comportamento contrastou com o silêncio da partida anterior e levou observadores a concluir que as atletas teriam sido pressionadas por integrantes do governo que compunham a delegação.
A iraniana Deniz Toupchi disse que “não esperávamos isso, para ser sincera, porque sabemos que é realmente muito grande de se fazer”. E completou: “Estamos apenas orgulhosos delas”.
Famílias e repercussão internacional
Entre as incógnitas do episódio, está a situação das famílias das cinco atletas que permaneceram no Irã. Burke não forneceu detalhes sobre eventuais consequências para os parentes.
Na noite de domingo, 8, centenas de torcedores cercaram o ônibus da seleção ao deixar o estádio em Gold Coast, com gritos de “salvem nossas garotas”. Parte da comunidade iraniana presente nos jogos levou para dentro do estádio bandeiras com o símbolo do leão e do Sol, emblema anterior à Revolução Islâmica de 1979, desafiando avisos externos que proibiam a exibição de qualquer símbolo que não fosse a bandeira oficial atual do país.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou no debate na segunda-feira, ao publicar em sua rede social que a Austrália deveria “conceder asilo” às mulheres, afirmando que os EUA as receberiam caso o país não o fizesse. Cerca de uma hora depois, Trump publicou novamente dizendo ter conversado com o primeiro-ministro australiano e que “cinco já foram resolvidas, e as demais estão a caminho”.
Apoio nas arquibancadas, silêncio em campo
A ativista Naz Safavi, que acompanhou as três partidas da seleção iraniana no torneio, resumiu a percepção de parte do público: “Elas não podem falar livremente porque estão sob ameaça. Nós estamos aqui para mostrar que as apoiamos totalmente”.
Craig Foster, ex-capitão da seleção masculina australiana e defensor de direitos humanos, avaliou que os ativistas têm “preocupações muito razoáveis e sérias com a segurança delas”. Para Foster, toda equipe que participa de torneios regulados pela Fifa deve ter garantido “o direito à segurança e ao apoio externo para expressar quaisquer preocupações” sobre sua integridade presente ou futura.
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Comentários (1)
Têm meu respeito!!!!!