Jerônimo Teixeira na Crusoé: O protesto de rua ficou antiquado
Relíquia da era das revoluções, a manifestação de massa talvez não seja mais tão eficiente para impulsionar grandes mudanças
Protestos estão programados na Faixa de Gaza. Já terão acontecido quando o leitor abrir este texto, nesta sexta-feira, 4.
Escrevo na manhã de quarta-feira. Não sei ainda se essas manifestações tiveram uma adesão significativa, se ganharam repercussão na imprensa, se conseguiram tomar as ruas sem sofrerem repressão.
Tomei conhecimento do chamado para os protestos graças a Ihab Hassan, um ativista palestino que sigo no X.
Crítico severo da atual política de Israel em Gaza e na Cisjordânia, Hassan também é um opositor ferrenho do Hamas.
E as manifestações que ele divulgou são contra o grupo terrorista que ainda manda em Gaza.
Já há alguns meses, os palestinos têm ido às ruas pedir a queda do Hamas.
Parecem perceber que a responsabilidade original pela destruição das cidades onde viviam pesa sobre os fanáticos que desencadearam um ataque covarde a civis israelenses em 7 de outubro de 2023.
O movimento arrefeceu depois que um de seus líderes, Odai Naser Saadi, foi sequestrado e torturado até a morte pelo Hamas. A esperança é que os protestos ganhem novo impulso a partir de agora.
Vídeos de palestinos percorrendo ruas ainda cheias de entulho e escombros para gritar “fora Hamas” (segundo informam as legendas) foram das poucas imagens alentadoras que vi no noticiário neste ano.
No entanto…
A voz débil das ruas
Como baratas depois que a luz da cozinha se apaga, os bandidos do Hamas emergiram de seus subterrâneos logo que se firmou o cessar-fogo com Israel.
Com lenços no rosto e metralhadoras a tiracolo, armaram um circo obsceno para humilhar os sequestrados israelenses que libertaram depois de mais de um ano de cativeiro.
Será que uma milícia armada e violenta deixa o poder só pela força da voz das ruas? Mas se nem governantes eleitos fazem isso…
Naquele país ao leste de Gaza que o Hamas e seus simpatizantes gostariam de riscar do mapa, Benjamin Netanyahu segue no poder a despeito de uma sucessão de manifestações que começou já antes da guerra.
E Israel é uma democracia parlamentarista — em tese, um regime mais sensível à pressão popular (uma pesquisa de março indicou que pouco mais de 70% dos israelenses desejam a renúncia do primeiro-ministro).
As corajosas mulheres iranianas que vêm enfrentando a polícia moral dos aiatolás tampouco conseguiram enfraquecer o regime. Há meses, temos visto ondas de protesto contra os governos da Sérvia e da Geórgia — ambos alinhados à Rússia de Putin —, até agora sem resultado.
Mais perto de nós, o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, já foi desafiado por manifestações gigantescas. Não caiu.
O cenário futuro é incerto e pode até ser que esses governos caíam, ou pelo menos sejam abalados. Mas casos em que a pressão popular levou a mudanças efetivas no regime – como a Revolução Laranja na Ucrânia, em 2005 – parecem ser a exceção.
Bastilhas da imaginação
Nossa imaginação política permanece amarrada a velhos mitos revolucionários.
Ainda esperamos que o povo, essa entidade volúvel e caprichosa, levante-se contra os tiranos, sempre guiado por aquela beldade de seios nus que Delacroix pintou em A Liberdade Guiando o Povo (1830).
Isso vale até para quem diz combater a mentalidade revolucionária.
Donald Trump criou em torno de seu governo uma aura de insurreição permanente.
Ele já não fala como um representante eleito do povo americano, mas como um rebelde que tomou a Casa Branca de assalto.
A Bastilha que ele quer fazer ruir leva o nome de “Estado profundo” (deep state).
Seu projeto é de demolição. Deseja pôr abaixo não somente o woke e o esquerdismo, mas os alicerces da democracia moderna e da economia liberal.
A ala aloprada do MAGA já foi além da retórica insurrecta: tentou de fato tomar o poder de assalto, na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021 – evento que três anos depois ganharia sua versão tropical na Intentona Tonta do 8 de janeiro, meu tema da semana passada.
Defasagem tecnológica
Palestinos querem viver sem Hamas.
Iranianas desejam libertar o cabelo do hijab obrigatório.
Georgianos exigem eleições honestas, transparentes e sem interferência russa.
Venezuelanos pedem democracia.
Não há nada de radical ou extremista nessas reivindicações.
Mas, mesmos os mais pacíficos protestos de nossos diais ainda arremedam as investidas de forças insurgentes ao longo da história – dos plebeus que tomaram a Bastilha em 1789 aos estudantes que levantaram barricadas em Paris em maio de 1968.
A fórmula não mudou: uma multidão marcha pela rua, quase sempre na direção de algum centro do poder (palácio presidencial, congresso, sede grande corporação).
Em contextos autoritários, há algo de irracional nessa tentativa de se fazer ouvir pelo ditador do turno.
A massa comprimida na rua ou na praça fica vulnerável às forças da repressão.
Aos longo dos séculos revolucionários, as tecnologias do protesto ficaram estacionadas, enquanto os meios de conter multidões (alerta de eufemismo!) avançaram muito, com balas de borracha, gás lacrimogêneo e mangueiras de alta pressão, para citar apenas instrumentos não letais.
(Muito se falou, a propósito, do uso…
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