Irã eleva pressão sobre Trump antes de eleições
Escalada no Oriente Médio se soma à disputa política pelo controle do Congresso americano nas eleições de novembro
Ataques a petroleiros iranianos, avanço de aliados de Teerã no Iêmen e petróleo acima de 100 dólares o barril marcam o cenário que antecede as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para o dia 3 de novembro.
Forças americanas destruíram cinco petroleiros do Irã em 8 de setembro, em resposta a disparos de mísseis balísticos da Guarda Revolucionária contra um navio de guerra da Marinha dos EUA. O presidente Donald Trump chamou o pleito de “uma das eleições mais importantes da história do nosso país” e associou o desfecho do conflito ao calendário eleitoral.
Estratégia de escalada limitada
Segundo reportagem da agência alemã DW, especialistas descrevem a postura iraniana como uma “escalada controlada”: Teerã buscaria impor custos aos Estados Unidos sem provocar uma resposta militar de maior escala.
O professor Mohammad Ghaedi, do Departamento de Ciência Política da Universidade George Washington, afirmou à emissora que “o Irã aparentemente ainda vê a escalada como um instrumento controlado para negociações sob pressão, e não como um fim em si mesmo”.
Essa leitura explicaria, segundo o pesquisador, o volume reduzido de mísseis disparados contra embarcações americanas na região. O objetivo seria demonstrar capacidade de ameaça sem abrir caminho para uma ofensiva americana mais ampla.
O contexto energético reforça a tensão. Em 9 de setembro, o petróleo Brent ultrapassou os 100 dólares por barril, reflexo direto do agravamento das disputas em torno do Estreito de Ormuz. Um dia antes, rebeldes houthis, alinhados ao Irã, passaram a controlar o Estreito de Bab el-Mandeb, ligação entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, o que deve pressionar ainda mais o mercado global de combustíveis.
Em 10 de setembro, a Guarda Revolucionária iraniana divulgou imagens que, segundo fontes do país, mostram a captura de um drone submarino americano modelo Anduril Dive-LD no Estreito de Ormuz, supostamente usado em operação de remoção de minas.
Diplomacia travada e discurso de guerra
No fim de agosto, durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, o ditador iraniano Massoud Peseshkian defendeu o retorno ao Memorando de Islamabad, acordo firmado entre Washington e Teerã em junho de 2026 para encerrar o conflito. A condição seria o cumprimento das obrigações também pelo lado americano.
Um obstáculo identificado por Ghaedi está na primeira cláusula do memorando, que prevê retirada israelense do Líbano — medida considerada improvável antes da eleição para o 26º Knesset, marcada para 27 de outubro, dias antes do pleito americano.
A Reuters, citada na reportagem da DW, informou em 2 de setembro que assessores de Trump recomendariam conter a escalada até novembro, por temor de desgaste eleitoral entre os republicanos, enquanto a Casa Branca avaliaria ampliar operações militares após a votação.
Apesar dos sinais de abertura diplomática, autoridades iranianas mantiveram discurso combativo. Em 9 de setembro, o vice-presidente do Parlamento, Ali Nikzad, declarou a jornalistas: “Continuaremos a guerra até a vitória final”.
Um dia antes, o porta-voz da Guarda Revolucionária, Hossein Mohebbi, exigiu que os Estados Unidos “cessem completamente a guerra” e afirmou que uma nova reação da força poderia ocorrer caso os ataques prossigam.
Pressão econômica e risco de reação
O economista iraniano Ahmad Alavi, radicado na Suécia, alertou contra a crença de que pressão econômica resulte em concessões políticas. Segundo ele, se a liderança iraniana interpretar as sanções como tentativa de derrubá-la, “poderá encarar as concessões como uma ameaça maior à sua sobrevivência e, em vez disso, recorrer a uma escalada da ação militar”.
Alavi avalia que Teerã tende a ceder apenas diante de uma redução real da pressão e da existência de um canal de negociação confiável.
Nesse sentido, Omã e países do Golfo retomaram esforços diplomáticos: segundo o jornal britânico Financial Times, ministros das Relações Exteriores do Golfo devem se reunir com representantes iranianos em Salalah, no Omã, na próxima semana, com o objetivo de garantir temporariamente a navegação comercial pelo Estreito de Ormuz — acordo que dependeria de aval de Washington.
Para Ghaedi, os próximos passos do conflito dependerão do resultado das eleições americanas. Caso os democratas conquistem o controle do Congresso e tentem limitar a campanha militar de Trump, o Irã tenderia a agir com mais cautela, evitando qualquer movimento capaz de gerar apoio bipartidário dos EUA à continuidade da guerra.
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