Irã convoca diplomata francês após prêmio em Cannes
Autoridades iranianas reagem a comentário de chanceler francês sobre prêmio a filme do cineasta dissidente Jafar Panahi
O governo iraniano convocou o representante diplomático da França em Teerã neste domingo, 25, para prestar esclarecimentos sobre declarações do ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, que elogiou o cineasta iraniano Jafar Panahi.
Panahi, 64, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes pelo filme Um Simples Acidente (Un Simple Accident), um drama político que critica o regime iraniano e retrata ex-prisioneiros em busca de vingança contra um torturador. O longa foi filmado clandestinamente e traz atrizes sem véu, o que desafia as normas impostas pela República Islâmica.
Após o anúncio do prêmio, Barrot publicou em sua conta na rede X:
“Num gesto de resistência contra a opressão do regime iraniano, Jafar Panahi ganha uma Palma de Ouro que reacende a esperança para todos os combatentes da liberdade”. A declaração gerou forte reação em Teerã.
A agência oficial IRNA classificou o comentário como “insultuoso” e condenou o uso do festival pela França para promover “sua agenda política contra a República Islâmica”. Segundo a IRNA, o diplomata francês foi chamado ao Ministério das Relações Exteriores para prestar esclarecimentos.
O governo iraniano, no entanto, manteve silêncio sobre a vitória do filme de Panahi, que até agora não foi mencionada pela mídia estatal. Em vez disso, os veículos estatais deram destaque a um festival de cinema alinhado ao regime, chamado “Festival da Resistência”.
Quem é Jafar Panahi?
Panahi é crítico ferrenho das autoridades iranianas e foi preso duas vezes por sua atuação política — em 2010 e entre 2022 e 2023.
Desde 2010, está proibido de dirigir filmes oficialmente no país. Esta foi a primeira vez em 15 anos que ele compareceu pessoalmente a Cannes para receber um prêmio. Na cerimônia, fez um apelo à união nacional e à liberdade do Irã.
“Acho que este é o momento de todos os iranianos, com suas diferenças, deixarem de lado as divisões. O mais importante agora é a liberdade do nosso país”, afirmou.
O filme vencedor da Palma de Ouro acompanha cinco ex-presos políticos que sequestram um homem com uma perna mecânica, suspeito de ser o torturador responsável por suas prisões. A trama tem inspiração direta na trajetória pessoal de Panahi, que foi perseguido e torturado pelo regime.
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