Impasse orçamentário aproxima EUA da paralisação
Desacordo sobre gastos coloca em risco salários de servidores e pagamento de benefícios sociais; líderes trocam acusações
O governo federal dos EUA está cada vez mais próximo de enfrentar uma paralisação administrativa, conhecida como ‘shutdown’, devido à falta de consenso entre o presidente Donald Trump, republicanos e democratas no Congresso.
O impasse diz respeito ao orçamento federal destinado ao próximo ano fiscal. O motivo da disputa é a exigência democrata de obter mais de US$ 1 trilhão (R$ 5,32 trilhões) para prolongar subsídios do Obamacare e reverter cortes no Medicaid. A falta de um entendimento coloca milhares de funcionários públicos temporariamente sem remuneração e suspende o pagamento de muitos benefícios sociais.
Riscos imediatos da falta de fundos
Ninguém parece querer um acordo. Líderes do Partido Republicano insistiram que os democratas deveriam aceitar um projeto de lei já aprovado pela Câmara. Esse projeto visa apenas estender os fundos federais nos níveis atuais até 21 de novembro. Os democratas, por sua vez, demandam fundos para programas de saúde que os republicanos incluíram em sua lei de corte de impostos e política interna.
A paralisação, caso ocorra, tem um impacto quantificável na economia e na vida dos cidadãos. O Gabinete de Orçamento do Congresso (CBO) projetou que 750 mil funcionários federais poderiam ficar em situação de desemprego parcial. Isso representaria uma perda de renda de US$ 400 milhões (R$ 2,13 bilhões).
As consequências se estendem ao sistema de saúde. Os democratas tentam impedir que os créditos fiscais do Obamacare expirem no final do ano. Se isso acontecer, projeta-se que cerca de quatro milhões de pessoas perderão a cobertura a partir do próximo ano. Além disso, os preços aumentarão para mais 20 milhões de indivíduos. O CBO também calculou que mais 10 milhões de americanos ficarão sem seguro até 2034, resultado dos cortes na área da saúde previstos na nova legislação tributária.
O senador John Thune, republicano de Dakota do Sul e líder da maioria, expressou abertura para negociar separadamente o prolongamento dos créditos fiscais. Muitos senadores republicanos que buscam a reeleição no próximo ano apoiam essa medida. Contudo, Thune acusou os Democratas de estarem tomando o financiamento do governo “refém”.
Escalada retórica e trocas de acusações
No contexto do impasse, as respectivas lideranças concentraram esforços em culpar o lado oposto. Trump afirmou que “provavelmente teremos uma paralisação”, em conversa com repórteres no Salão Oval, poucas horas antes do prazo final. Disse ainda que a oposição seria responsável: “Eles vão paralisá-lo, não nós. Não queremos paralisar porque estamos vivendo o melhor período já visto”.
A tensão foi amplificada por meio de conteúdos digitais. Democratas criticaram Trump por publicar um vídeo gerado por Inteligência Artificial (IA) que os insultava. O deepfake, postado na noite de segunda-feira, sobrepôs um bigode de desenho animado e um sombreiro ao deputado Hakeem Jeffries, líder da minoria democrata na Câmara. O vídeo tentou fazer com que o senador Chuck Schumer dissesse comentários depreciativos sobre o Partido Democrata.
Schumer manifestou descontentamento com o comportamento do presidente: “Temos menos de um dia”, disse no Senado, “e Donald Trump está tuitando deepfakes”.
O deputado Jeffries respondeu à publicação de Trump na noite de segunda-feira com uma fotografia. A imagem mostrava Trump sorrindo ao lado de Jeffrey Epstein, financista bilionário que faleceu na prisão em 2019. Jeffries postou a imagem, adicionando a declaração: “Isso é real”. Em uma publicação posterior, Jeffries escreveu: “A intolerância não levará você a lugar nenhum”.
Paralisações administrativas por falta de orçamento são geralmente malvistas nos Estados Unidos. Tanto democratas quanto republicanos buscam evitá-las, especialmente na iminência das eleições legislativas de meio de mandato, que ocorrerão em novembro de 2026.
O último bloqueio, que ocorreu entre o final de dezembro de 2018 e o final de janeiro de 2019, durante o primeiro mandato de Trump, estendeu-se por 35 dias. Naquela ocasião, o CBO estimou que o Produto Interno Bruto (PIB) do país foi reduzido em US$ 11 bilhões de dólares (R$ 58,49 bilhões). Até o meio-dia desta terça-feira, não havia indicativos de que os líderes do Congresso iriam se reunir para tentar obter um acordo de gastos.
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