Historiadores refutam acusações de genocídio em Gaza
O estudo procura examinar dados provenientes de fontes israelenses, palestinas e internacionais, identificando inconsistências nas informações amplamente divulgadas
O historiador Danny Orbach, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, discutiu a situação na Faixa de Gaza, em entrevista à Folha de S.Paulo e contestou as alegações de genocídio em curso.
Em sua análise, Orbach argumenta que as alegações sobre uma fome generalizada no território palestino são infundadas e exageradas.
A entrevista remete a um estudo de Orbach intitulado “Desmascarando as acusações de genocídio: um reexame da guerra Israel-Hamas”, no qual ele e colegas historiadores rejeitam categoricamente a ideia de que as ações do governo israelense em Gaza possam ser classificadas como genocidas.
Em declarações à Folha, o historiador considera que a acusação de genocídio “é algo tão distante da verdade que acho vergonhoso que pessoas sérias possam considerá-la”.
Inconsistências nas informações divulgadas
O estudo procura examinar dados provenientes de fontes israelenses, palestinas e internacionais, identificando inconsistências nas informações amplamente divulgadas.
Além disso, o trabalho critica os vieses de organizações humanitárias e da comunidade internacional ao acusar Israel de práticas genocidas e de provocar fome e desnutrição na região.
O estudo também faz referência à situação no Iraque nos anos 90, quando alegações sobre sanções americanas levando ao aumento da mortalidade infantil foram posteriormente desmentidas.
Orbach argumenta que muitas organizações podem errar ao se basearem em informações restritas e interdependentes.
Ele alerta ainda para os perigos associados à aceitação incondicional dos dados provenientes das autoridades de Gaza e destaca a importância da verificação cruzada das informações fornecidas por diferentes fontes.
O estudo dedica parte significativa à análise da qualidade dos dados sobre saúde divulgados por autoridades ligadas ao Hamas e discute divergências nas estatísticas referentes às vítimas do conflito.
O artigo completo está disponível apenas em hebraico até o momento, tendo sido publicado pelo Centro Begin-Sadat de Estudos Estratégicos da Universidade Bar-Ilan, com uma versão em inglês prevista para ser lançada em breve.
O historiador defende que os objetivos militares israelenses são legítimos, ressaltando a intenção de derrotar o Hamas.
Falsa acusação de genocídio
Ele argumenta ainda que Israel busca minimizar a morte de civis durante suas operações, uma justificativa que embasa a recusa em considerar as ações como genocídio.
Para Orbach, a definição do crime de genocídio tem sido ampliada erroneamente para incluir as operações israelenses contra o Hamas.
A expressão genocídio foi criada pelo jurista polonês Raphael Lemkin em 1944 e se tornou a base da Convenção para Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948. De acordo com seu artigo 2, genocídio abrange atos cometidos com a intenção deliberada de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.
Orbach cita exemplos históricos relevantes para sustentar sua argumentação. Ele menciona a operação americana chamada “Operation Starvation”, que tinha como objetivo interromper o abastecimento alimentar ao Japão durante a Segunda Guerra Mundial, além do caso de Goran Jelisić na Iugoslávia, que foi condenado por crimes de guerra mas absolvido da acusação de genocídio em tribunal internacional.
Em suas declarações, o historiador enfatiza a necessidade de um entendimento claro sobre a intenção por trás das ações para classificar um ato como genocídio: “É preciso ter cuidado com isso. Deve haver uma intenção muito clara de destruição de um grupo para tal”.
No ano anterior, a Corte Internacional de Justiça decidiu que Israel deveria permitir acesso à ajuda humanitária em Gaza e evitar atos que pudessem ser considerados genocídio. No entanto, a corte não classificou as operações israelenses como genocidas nem ordenou um cessar-fogo solicitado pela África do Sul.
Orbach reconhece que crimes de guerra estão ocorrendo em Gaza, mas ressalta que qualquer análise sobre o conflito deve levar em conta as interações entre as ações dos dois lados envolvidos: “Guerras são uma atividade recíproca onde cada parte é influenciada pelo comportamento da outra”.
Orbach defende que é essencial compreender os fatos antes de avançar para debates sobre o conflito:
“Cruzamos e fazemos justaposições de dados israelenses, palestinos e internacionais para tentar entender o que é verdade. Fazemos isso porque acreditamos que, antes de entrar no debate ético e jurídico, precisamos entender os fatos. Pessoas demais estão pulando esse estágio e moldando os fatos para que eles se acomodem a sua perspectiva ética”, diz.
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Comentários (3)
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
27.08.2025 06:49O difícil deve ser explicar isso para os pais de uma criança que morre de inanição, para os familiares de pessoas que são fuziladas na fila para receber parte dos limitados mantimentos que são permitidos chegar aos ainda vivos, aos pais das crianças que foram mortas com tiros na cabeça e no tórax em sinais de simples execução como denunciado ontem nos telejornais. Deve ser muito difícil. Pode não ser genocídio, mas está muito parecido.
Marly Beaklini Guimarães Lemos
25.08.2025 15:46Quer dizer que não houve a intenção de matar? E os ataques à hospitais, escolas, instalações da ONU e na fila procurando alimento? Há comida suficiente e as crianças esquálidas estão com anorexia? Não é de hoje que Israel deseja ocupar Gaza a Cisjordânia. A tese defendida se destina a evitar o grande antissemitismo mundial. Está nos nos corações e mentes o horror que foi esta guerra, inicialmente uma retaliação necessária e depois a locupletacão pretendida Uma inesquecível mancha na história de Israel.
Marcia Elizabeth Brunetti
25.08.2025 08:11Aqui no Brasil bastam esses dados parecerem na Globo para o povo acreditar. E não é o ignorante. Este nem sabe onde fica Gaza. É o povo que liga a TV e assiste, sem sequer buscar mais fontes.