Gustavo Nogy na Crusoé: Quando morre um papa
A morte de Francisco ressuscita controvérsias que não fazem muito sentido
De repente, percebo que já tenho idade para ter visto a morte de três papas e a consequente escolha de outros três.
Papados e Copas do Mundo de futebol são unidades de medida alternativas.
Quando nos lembramos como se fosse ontem da gritaria de Galvão Bueno a lamentar tantas derrotas, ou do sussurro de Ilze Scamparini a lamentar tantos conclaves, é sinal de que viraremos fumaça em breve.
Me lembro que o mundo (progressista) ficou atordoado com a escolha do sucessor de João Paulo II.
Depois do longo pontificado de Karol Wojtyła, talvez esperassem um papa budista, kardecista, quem sabe ateísta, para que o catolicismo não ficasse tão com cara de catolicismo.
Mas a fumaça branca trouxe anúncios negros: “pastor alemão” para os íntimos e “nazista” para os conhecidos, Joseph Ratzinger escolheu o nome Bento XVI e — vejam só que absurdo! — pontificou como um papa católico. Renunciou (fato raro) após oito anos.
Foi a vez de o mundo (reacionário) ficar atordoado com a escolha do sucessor de Bento XVI.
Após o teológico pontificado de Joseph Ratzinger, talvez esperassem um papa ultramontano, tradicionalista, quem sabe inquisidor, para que o catolicismo não ficasse tão com cara de comunismo.
Mas a fumaça branca trouxe anúncios vermelhos: “liberal” para os íntimos e “comunista” para os conhecidos, Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome Francisco e — vejam só que absurdo! —, pontificou como um papa católico. Faleceu (fato menos raro) após doze anos.
O Fla-Flu pontificial recomeçou. Será conservador? Será liberal? Será nazista? Será comunista?
Quando morre um papa nascem as conspirações. Eu aposto todas as fichas que será… católico.
Chato, não é mesmo? Mais ou menos assim, mais ou menos assado.
Uma ênfase no social às segundas, quartas e sextas; uma apertada no dogma às terças, quintas e sábados; aos domingos, depende da paróquia local.
Uma leitura atenta e minimamente objetiva dos testemunhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, para citar somente os canônicos, revelam (ou escondem) um Jesus que escapa às projeções ideológicas nascidas de uma prosaica distribuição de assentos na Assembleia Nacional Francesa de 1789.
Que a Igreja seja considerada “de direita” por esquerdistas faz tanto sentido quanto ser considerada “de esquerda” por reacionários: ou seja, nenhum.
Confesso que minha fé já não é mais a mesma, mas gosto de saber que a Fé continua a ser o que é.
Igual a si mesma, a despeito de predileções e suscetibilidades, da minha vontade ou da sua. No fim das contas, nunca se sabe quem é joio e quem é trigo.
Quem é judeu e quem é gentio. Quem é fariseu e quem é samaritano.
Somos todos estrangeiros numa mesma terra.
O último a pecar, por favor, se achar…
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