Governo Trump vai nacionalizar algoritmo do TikTok?
Casa Branca e Pequim divergem sobre tratativas; EUA pretendem controlar a versão americana do aplicativo
O governo dos Estados Unidos negocia com a ByteDance, controladora chinesa do TikTok. O objetivo é obter o domínio sobre o sistema de recomendação de vídeos da versão norte-americana do aplicativo. A secretária de imprensa Karoline Leavitt confirmou a intenção, que é vista como uma resposta aos temores de que o algoritmo seja usado para propagar conteúdo que contrarie interesses americanos.
A capacidade de identificar os gostos de cada indivíduo e incentivá-lo a manter a rolagem da tela fez o aplicativo chinês disparar em popularidade. O algoritmo é o segredo para o êxito global do TikTok, que possui mais de um bilhão de usuários ativos mensais em todo o mundo. Essa função explica por que, em média, os usuários dedicam mais tempo à plataforma do que assistindo a um filme.
O plano em discussão prevê que os dados da rede social fiquem armazenados em servidores seguros. Estes servidores seriam administrados pela norte-americana Oracle, em conjunto com um consórcio que inclui o executivo de mídia Lachlan Murdoch. Se o controle do algoritmo da versão local for conquistado, a Casa Branca considerará uma vitória.
A medida agrada críticos que demonstram apreensão sobre a influência do aplicativo na vida dos cidadãos americanos. Opositores chegam a alegar, sem apresentar provas, que o sistema de recomendação poderia espalhar propaganda antiamericana a milhões de jovens suscetíveis.
Impactos da modificação no sistema de recomendação
Mas tudo isso pode gerar um custo alto para a plataforma. Se o algoritmo da versão americana do TikTok apresentar qualquer diferença em relação ao código usado no resto do mundo, os usuários podem perceber como uma versão inferior. Essa percepção tem o potencial de levar a um abandono em massa do aplicativo. A ByteDance não se manifestou sobre o pedido de comentário da Fast Company.
Marcus Bösch, consultor e pesquisador especializado na plataforma, é categórico ao dizer que “o futuro do TikTok nunca pareceu tão sombrio quanto agora”. Tom Divon, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, avalia que um feed nacionalizado pode, em princípio, parecer mais seguro. No entanto, ele “gera o risco de restringir o que as pessoas veem, filtrando o espaço global, diverso e caótico que fez o TikTok ser tão especial”.
Outros especialistas antecipam mudanças intensas na experiência de uso. Jessica Maddox, professora de mídia na Universidade da Geórgia, nos EUA, diz que prevê “mudanças radicais no algoritmo da página For You”. Ela observou que em momentos de tensão política, o TikTok costuma dar destaque ao que chama de “conteúdo de programação de sessão da tarde”: dancinhas, bebês e bichinhos.
A professora Maddox projeta que os usuários terão de se empenhar para “reeducar” o algoritmo de acordo com seus interesses. O TikTok pode se transformar em um espaço de conteúdo mais superficial e generalista. Se isso acontecer, a plataforma perderá sua reputação de reunir nichos hiperespecíficos, um diferencial que a colocou à frente de concorrentes como YouTube e Instagram.
Moderação de conteúdo e cenário político
O sistema que impulsionou o TikTok foi desenvolvido pela ByteDance ao longo de anos e treinado por meio de aplicativos anteriores. Especialistas temem que este sistema refinado possa ser convertido em uma ferramenta com o objetivo de promover apenas conteúdos favoráveis à atual administração.
Trump chegou a afirmar que o líder chinês Xi Jinping aprovou os termos do acordo. As narrativas de Pequim e Washington, entretanto, apresentam desacordo. A imprensa estatal chinesa noticiou que o Partido Comunista garantiria que a ByteDance manteria o controle sobre o algoritmo; Trump rebateu.
Sob a gestão do republicano, as regras sobre o que será ou não permitido no aplicativo podem mudar significativamente. Jessica Maddox consegue “imaginar termos políticos que não se alinhem com os interesses do governo sendo simplesmente bloqueados”.
Marcus Bösch insinua que o TikTok seguirá o caminho do X (antigo Twitter): a versão norte-americana “provavelmente será inundada por propaganda política gerada por IA”.
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