Google se junta à SpaceX e prepara data centers no espaço para sustentar a nova corrida da inteligência artificial
Protótipos voam em 2027, 81 satélites formam a rede e a energia solar no espaço gera até oito vezes mais eletricidade do que em solo.
Você digita um comando no ChatGPT, no Gemini ou em qualquer assistente, e a resposta chega em segundos. O que quase ninguém percebe é que, para isso acontecer, um data center terrestre consumiu eletricidade equivalente a dezenas de casas. O Project Suncatcher, iniciativa do Google revelada no fim de 2025, quer resolver esse problema levando a computação para a órbita da Terra.
O que é o Project Suncatcher e por que ele envolve a SpaceX?
O Suncatcher é um plano para criar uma constelação de satélites equipados com TPUs, os chips de inteligência artificial do Google, alimentados por painéis solares. A meta é simples de explicar: capturar energia solar onde ela nunca para, eliminar o custo de refrigeração e aliviar a pressão sobre as redes elétricas terrestres.
A SpaceX entra como a principal candidata a levar esses satélites ao espaço. Em maio de 2026, o Wall Street Journal revelou que as duas empresas negociam um contrato de lançamento, embora o Google também converse com outros fornecedores de foguetes. A escolha faz sentido: a SpaceX já detém 6,1% de participação do Google desde o investimento de 900 milhões de dólares em 2015, e se prepara para um IPO avaliado em até 1,75 trilhão de dólares.
Os números que sustentam o projeto:
- 81 satélites: a formação planejada para o cluster orbital de computação.
- 1 km de raio: distância máxima entre os satélites da constelação.
- 1.6 Tbps: velocidade de transmissão dos links ópticos entre satélites, já testada em laboratório.
- 8 vezes mais energia: quanto um painel solar em órbita gera em comparação com um em latitudes médias terrestres.
Como um data center funciona no espaço?
A arquitetura é modular. Em vez de um único centro gigante, o Google projeta dezenas de satélites pequenos, cada um com múltiplos chips TPU, voando em formação e trocando dados por links ópticos de espaço livre. O sistema dispensa baterias pesadas porque as órbitas heliossíncronas garantem exposição quase contínua ao sol.
O resfriamento, um dos maiores custos dos data centers terrestres, também muda de figura. No vácuo do espaço, o calor se dissipa por radiação, sem gastar um litro de água. A limitação real está na largura de banda para transmitir os resultados de volta à Terra e na tolerância dos chips à radiação cósmica.
Na tabela abaixo, as diferenças entre os dois modelos:
🛰️ Terrestre vs. Orbital — Data Centers
Comparativo técnico de infraestrutura de computação
| Fator | 🏭 Terrestre | 🛸 Orbital |
|---|---|---|
⚡ Energia |
Rede elétrica local | Painéis solares contínuos |
❄️ Refrigeração |
Água e ar condicionado | Radiação no vácuo |
📶 Latência |
Baixa | Mais alta |
🔧 Manutenção |
Equipes no local | Inviável após o lançamento |
Quanto custa e quando isso se paga?
Hoje, a conta ainda não fecha. Somando fabricação dos satélites, lançamento e vida útil limitada pelo desgaste da radiação, um data center orbital sai muito mais caro do que um terrestre equivalente. Mas o Google projeta que os custos de lançamento cairão para menos de 200 dólares por quilo até meados da década de 2030, com a escala dos foguetes reutilizáveis.
Se essa curva se confirmar, operar computação no espaço pode custar quase o mesmo que em terra firme, só que com energia solar farta e zero emissões diretas. É um cenário de longo prazo, mas é nele que o Google aposta. Enquanto isso, a empresa anunciou 40 bilhões de dólares em data centers terrestres apenas no Texas.
Quais são os riscos reais de colocar IA em órbita?
O primeiro risco é a radiação. Os chips Trillium v6e foram testados com um feixe de prótons de 67 MeV e resistiram a quase três vezes a dose esperada para cinco anos de missão, segundo o artigo técnico do projeto. Mas resistir em laboratório é diferente de sobreviver uma década no espaço.
O segundo é a ausência de manutenção. Um data center orbital não recebe visita técnica: se um satélite falha, ele vira lixo espacial. O terceiro é a concorrência. A Starcloud, apoiada por Y Combinator e Nvidia, já lançou um satélite com GPUs H100 em dezembro de 2025, e a China colocou em órbita a constelação Three-Body Computing em junho do mesmo ano. A largada foi dada.

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O que esperar do Suncatcher nos próximos anos?
O marco mais concreto está travado para o início de 2027, quando dois protótipos construídos em parceria com a Planet Labs devem entrar em órbita baixa. Eles levarão múltiplos TPUs e testarão se os chips aguentam o ambiente espacial por meses a fio. É o primeiro passo de um plano que o CEO Sundar Pichai descreveu como “a próxima fronteira para escalar a computação de aprendizado de máquina”.
O projeto ainda enfrenta engenharia pesada, custos altos e céticos de plantão. Mas a direção está dada. Com a Agência Internacional de Energia projetando que o consumo dos data centers pode mais que dobrar até 2030, puxado pela IA, a ideia de processar dados fora da Terra deixou de ser ficção científica para virar estratégia de negócios. O relatório completo da AIE está disponível no portal da Agência Internacional de Energia. Quem resolver a equação primeiro define as regras do jogo.
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