Geórgia se afasta da democracia em aceno a Putin
País, que já foi um dos bons exemplos do mundo pós-soviético, copia modelo russo e persegue oposição
Antes vista como um exemplo de sucesso democrático pós-soviético, a Geórgia vem trilhando “o caminho de servidão”, para lembrar o título de um dos grandes manifestos do economista e filósofo Friedrich Hayek.
Conforme observado por Natasha Lindstaedt, professora do Departamento de Governo da Universidade de Essex, o país de menos de 4 milhões de habitantes, que celebrou eleições majoritariamente livres e uma sociedade civil dinâmica entre 1991 e 2020, agora exibe poucos vestígios de suas conquistas democráticas.
Esse declínio é visível no encarceramento ou na acusação de seis líderes da oposição e na perseguição a dirigentes de think tanks, muitas vezes sob pretextos de financiamento estrangeiro ou críticas ao governo.
O movimento em direção à Europa, simbolizado pela “Revolução Rosa”, de 2003, e as aspirações de ingresso na União Europeia, parecem ter sido interrompidas abruptamente. A frustração é expressa pelos cidadãos em pesquisas: cerca de 80% dos georgianos almejam a filiação ao bloco europeu, e mais de 60% dos entrevistados apoiam os protestos contra o governo, com 82% percebendo o país em crise e 78% culpando o partido Sonho Georgiano.
A consolidação do poder e a influência russa
A transformação autoritária da Geórgia acelerou sob a administração do partido Sonho Georgiano. Em maio de 2024, foi promulgada uma lei inspirada em um modelo russo, exigindo que organizações não-governamentais (ONGs) que recebem fundos externos se registrem, impondo severas restrições a aproximadamente 26.000 dessas entidades, a maioria das quais depende de financiamento internacional. Este ato legislativo, que gerou protestos massivos, é um marco na repressão da sociedade civil, conforme destaca Lindstaedt.
Paralelamente, o governo implementou uma série de medidas que espelham as políticas de Moscou. Novas leis em 2024 visam a comunidade LGBTQ+, proibindo conteúdos que apresentem relações homoafetivas e suprimindo direitos, como o de adoção. Além disso, a Geórgia classificou a traição como crime e criminalizou insultos a políticos online, uma clara tática para neutralizar adversários políticos.
Desde o início de 2025, mais de 800 funcionários públicos foram destituídos em purgas que visam garantir lealdade ao governo, e não eficiência. A intensificação da vigilância e o aumento das multas para manifestantes também são evidentes nas ruas de Tbilisi, onde câmeras foram instaladas para monitorar os protestos.
O bilionário Bidzina Ivanishvili, eleito primeiro-ministro em 2012 e considerado o líder de fato da Geórgia, é uma figura central nessa virada política, exercendo influência significativa nos bastidores mesmo após sua saída formal em 2013.
A invasão russa de 2008, que resultou na manutenção de tropas russas a apenas 30 milhas da capital, Tbilisi, também é apontada por Lindstaedt como um fator que minou a democracia e deu confiança a Vladimir Putin para futuras agressões.
Apesar de o governo retratar essa aproximação com a Rússia como uma “guerra cultural” contra o Ocidente, a percepção pública difere drasticamente: 69% dos georgianos ainda veem a Rússia como o principal inimigo do país, um aumento significativo em relação aos 35% registrados em 2012.
Embora o partido Sonho Georgiano enfrente crescente oposição pública, obteve quase o mesmo número de votos nas eleições de 2024 que em 2012, resultado que, de acordo com Lindstaedt, pode ser parcialmente explicado por acusações de fraude e outras irregularidades.
No entanto, o forte apoio à resistência demonstra que, embora a Rússia possa ter conseguido minar as instituições democráticas na Geórgia, ela não conseguiu moldar a mentalidade de seu povo. Por enquanto.