Garry Kasparov analisa os movimentos de Trump
Presidente americano não é um ditador como Putin, mas seus métodos de “persuasão” são controversos e autoritários
No tabuleiro político contemporâneo, as discussões sobre a liberdade de expressão e a possibilidade real de crítica, oposição ou a governos nominalmente democráticos ganham contornos cada vez mais complexos, mesmo em países cuja tradição institucional serve de muro de contenção aos solavancos populistas e arbitrários.
Se, no Brasil, o ex-presidente se justifica dizendo que procurou amparo constitucional para a ruptura constitucional, no exterior a situação não é das mais tranquilas. O ex-enxadrista – e hoje analista político russo – Garry Kasparov percebe uma estratégia até certo ponto sutil, porém igualmente eficaz, de cerceamento da oposição política. Em vez de recorrer a medidas abertamente repressivas, o método consiste em dificultar a vida dos críticos, exaurindo seus recursos e isolando-os.
Para um dos maiores gênios do xadrez na história, é o que tem feito o presidente americano Donald Trump. Desde a campanha eleitoral de 2016, com os gritos de “Prendam-na!” (referência ao episódio em que Trump pede a prisão da então adversária, Hillary Clinton), suas atitudes sinalizavam uma tendência à perseguição de opositores.
Mais recentemente, o Departamento de Justiça dos EUA abriu investigação contra ex-diretores de agências de inteligência, do FBI e da CIA, como James Comey e John Brennan, figuras abertamente críticas à administração.
De acordo com Kasparov, embora os motivos dessas investigações não estejam claros – fala-se em “possíveis irregularidades” –, a conexão com a crítica política dá margem a questionamentos sobre a legitimidade dessas ações.
Para o ex-campeão mundial, inimigo declarado de Vladimir Putin, o presidente americano é também uma figura de tendência autoritária, “imprevisível e egocêntrica”, cercada por apoiadores incondicionais – combinação pouco salutar à democracia.
Estratégias de pressão indireta
Segundo Kasparov, Trump não é um ditador clássico, como seu colega russo. Ainda que de modo grosseiro, suas intenções são indiretas. A tática não visa o encarceramento dos opositores, mas a criação de obstáculos insuperáveis para eles. Se puder, ele complica a vida de quem critica seus métodos e suas teses.
Por exemplo: uma das dificuldades enfrentadas por indivíduos sob investigação seria a busca por representação legal qualificada. Ordens executivas direcionadas a grandes escritórios de advocacia podem complicar essa busca, levando algumas firmas a evitar casos que possam atrair a atenção – e consequente – desaprovação do governo.
Embora o sistema legal americano ainda ofereça opções, os custos associados a batalhas jurídicas prolongadas são exorbitantes, podendo alcançar milhões de dólares. Em contraste, a máquina pública dispõe de recursos praticamente ilimitados para sustentar tais embates pelo tempo que for preciso. Nos EUA, os custos são altíssimos.
Além dos encargos financeiros diretos, o atrito se manifesta em custos indiretos consideráveis. Para Kasparov, ex-funcionários de alto escalão, como Comey e Brennan, mesmo sendo financeiramente bem-sucedidos, não possuem fortunas ilimitadas como os magnatas da tecnologia.
A exposição pública e o risco de retaliação presidencial podem transformá-los em figuras “marcadas”, proscritas, tornando difícil para eles encontrar trabalho ou colaboração profissional no futuro. Esse isolamento, nunca antes experimentado, serve como um aviso a todos os outros potenciais críticos.
O efeito inibidor na dissidência
O objetivo central dessas manobras, de acordo com Kasparov, é gerar um “efeito inibidor” generalizado na sociedade. A mensagem é clara: se mesmo ex-chefes de agências de inteligência podem ser alvo de tal escrutínio e pressão, qualquer um pode ser. Isso faria com que muitos pensassem duas, três, dez vezes, antes de expressar opiniões dissidentes muito enfáticas.
Não é preciso perseguir centenas de pessoas para alcançar esse resultado; basta fazer de alguns exemplos notórios, como foi o caso de instituições de ensino anteriormente. Essa é, em essência, a forma de restringir a liberdade de expressão sem a necessidade de proibições legais explícitas.
Garry Kasparov compara essa tática à de regimes autoritários, como o de Putin em seus primeiros anos, que enfraqueceram a oposição por meio de auditorias invasivas, intimações judiciais seletivas e revogação de imunidades. Essa abordagem é capaz de debilitar a oposição sem despertar a população para a gravidade do que ocorre. A importância consiste em reconhecer essas táticas antes que um aspirante a líder autoritário consiga domesticar a sociedade.
E antes que as pessoas comecem a cair sem querer das janelas, como na Rússia.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Denise Pereira da Silva
16.07.2025 08:34E o Brasil, através do atual governo Lula, se persistir nesta linha de complexo de superioridade, será um dos “exemplos notórios” mencionados por Kasparov.