Fungo de Chernobyl que “come” radiação é descoberto
Após quase quatro décadas do acidente nuclear de 1986, a região de Chernobyl continua a surpreender a comunidade científica
Após quase quatro décadas do acidente nuclear de 1986, a região de Chernobyl continua a surpreender a comunidade científica.
A área tornou-se um laboratório a céu aberto, revelando formas de vida capazes de suportar a radioatividade extrema e, em alguns casos, utilizá-la a seu favor, como o fungo escuro que cresce nas paredes do reator danificado.
A pesquisa, publicada na PLOS One, trouxe luz a essa adaptação bizarra da natureza.
O que é o fungo de Chernobyl Cladosporium sphaerospermum
O fungo Cladosporium sphaerospermum é um microrganismo de coloração escura, identificado crescendo em superfícies internas do reator danificado em Chernobyl.
Ele é classificado como um fungo radiotrófico, expressão usada para descrever organismos que conseguem aproveitar a radiação como fonte adicional de energia.
A principal suspeita para explicar esse comportamento é a presença de melanina, o mesmo pigmento responsável pela coloração da pele humana.
Nesse fungo, acredita-se que a melanina possa atuar de forma análoga à fotossíntese em plantas, mas usando radiação ionizante em vez de luz solar, em um mecanismo proposto como “radiossíntese”, ainda em investigação.
“Scientists have identified a black fungus growing on the radioactive remains of the Chernobyl nuclear reactor that appears to have evolved the ability to feed on radiation.
— Pirat_Nation 🔴 (@Pirat_Nation) November 13, 2025
The species, Cladosporium sphaerospermum, uses a rare process known as radiosynthesis” pic.twitter.com/P8pO6kVrg0
Como o fungo de Chernobyl transforma radiação em energia
A chamada “alimentação” do fungo de Chernobyl por meio da radiação é um processo que pesquisadores buscam detalhar passo a passo.
Quando raios gama atingem a melanina presente nas paredes celulares desse fungo, elétrons do pigmento são excitados, gerando energia química que pode ser incorporada ao metabolismo do organismo.
Em condições de escassez de nutrientes convencionais, esse ganho extra de energia tende a favorecer o crescimento e a recuperação de danos celulares. Experimentos em laboratório e em ambientes controlados mostram que algumas cepas do Cladosporium sphaerospermum apresentam respostas específicas à radiação, como as descritas a seguir.
- Crescem mais rapidamente quando expostas a fontes de radiação.
- Orientam seus filamentos em direção à origem da radiação, como se estivessem “buscando” energia.
- Formam camadas capazes de reduzir a passagem de partículas radioativas.
O fungo de Chernobyl pode proteger astronautas no espaço
Com o avanço dos planos de exploração lunar e marciana, a proteção contra a radiação cósmica tornou-se um dos principais desafios para agências espaciais. Nesse contexto, o fungo de Chernobyl começou a ser testado como candidato a material de blindagem biológica, inclusive em ensaios na Estação Espacial Internacional.
Resultados preliminares indicaram que esse fungo cresce de forma acelerada em ambiente de microgravidade e radiação constante, formando uma camada escura que atenua parte da radiação incidente. A partir disso, surgiram propostas de criar “tijolos fúngicos” com biomassa de Cladosporium sphaerospermum misturada a outros materiais leves para uso em habitats espaciais.

O que a fauna de Chernobyl revela sobre adaptação à radiação
Mamíferos e anfíbios da Zona de Exclusão também exibem sinais de adaptação à alta radioatividade ambiental. Estudos com lobos locais apontam alterações em genes relacionados à resposta imune e a mecanismos ligados ao desenvolvimento de câncer, sugerindo seleção de indivíduos mais resistentes a danos celulares.
No caso das rãs, pesquisadores registraram animais com coloração mais escura em áreas próximas ao antigo reator, associada a maior presença de melanina na pele.
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