França investiga abusos em dezenas de escolas de Paris
Onda de denúncias por violência sexual contra crianças pressiona autoridades a reformular o sistema de contratação de funcionários escolares
O sistema educacional de Paris enfrenta uma crise de proporções inéditas após denúncias de abuso sexual e violência contra crianças em mais de cem unidades escolares da capital francesa.
O estopim foi o julgamento de um ex-auxiliar de escola acusado de cometer crimes sexuais contra nove alunos, mas o caso expôs falhas estruturais que vão além de um único episódio: contratos precários, supervisão deficiente e falhas de comunicação entre gestores tornaram o ambiente escolar vulnerável por anos.
O julgamento que virou símbolo
David G., de 36 anos, ex-integrante da equipe não docente do jardim de infância Alphonse Baudin, no centro de Paris, está sendo julgado com acusações de abuso sexual contra nove crianças e assédio a duas colegas adultas. Ele foi suspenso em abril de 2025 e preso em junho do mesmo ano, segundo o Ministério Público de Paris.
Em depoimento prestado na terça-feira, o réu negou as acusações: “Olhando para trás agora, percebo que deveria ter sido mais cuidadoso perto das crianças, mantido mais distância, brincado menos com elas e evitado colocá-las no colo com tanta frequência”.
O caso chegou às autoridades após pais relatarem à direção da escola mudanças preocupantes no comportamento dos filhos.
Segundo familiares ouvidos no tribunal, as crianças apresentaram sintomas como alterações bruscas de humor, masturbação compulsiva, distúrbios alimentares e episódios de incontinência. “Isso foi um choque sísmico para toda a nossa família”, afirmou uma das mães. A sentença está prevista para 7 de julho de 2026, e a pena pode chegar a dez anos de prisão e multa de 150 mil euros.
O Ministério Público pediu três anos de prisão, com possibilidade de cumprimento de apenas um ano sob monitoramento eletrônico — perspectiva que gerou insatisfação entre as famílias das vítimas. A advogada Rebecca Royer, que representa seis delas, afirmou que seus clientes aceitaram a presença do público no julgamento “para que a sociedade entenda que estes não são casos isolados”.
Crise sistêmica e resposta das autoridades
O caso de David G. é apenas um entre dezenas de investigações abertas. De acordo com informações do jornal Le Monde, o maior processo até agora envolve a escola St.-Dominique: em maio de 2026, o Ministério Público anunciou a detenção de 16 funcionários da instituição e de outras duas unidades vizinhas, após entrevistas realizadas com 44 crianças. Dois deles foram formalmente indiciados e colocados em prisão preventiva.
Desde o início de 2026, 78 funcionários escolares foram suspensos pela prefeitura de Paris, sendo 31 por suspeitas de violência sexual. O prefeito Emmanuel Grégoire classificou o tema como sua “prioridade máxima” e anunciou investimento de 20 milhões de euros para enfrentar a situação.
A crise ganhou visibilidade pública em janeiro deste ano, quando um programa investigativo de televisão exibiu imagens gravadas por uma jornalista infiltrada no jardim de infância St.-Dominique. As imagens mostravam supervisores responsáveis por mais crianças do que o permitido pelas normas e, em uma das cenas, um funcionário beijando uma criança na boca. Após a exibição, dezenas de famílias registraram denúncias formais por estupro, abuso sexual e violência.
Grégoire reconheceu publicamente “uma responsabilidade coletiva” e falhas de comunicação interna: “Em muitos desses casos, tenho a impressão de que, se houve uma falha coletiva, foi tratar esses incidentes como casos isolados quando, na verdade, refletem um risco sistêmico”.
A raiz estrutural do problema está, em parte, no modelo de contratação: dos 13 mil funcionários não docentes que atuam em escolas parisienses, cerca de 10 mil são temporários, com pouca formação e remuneração baixa, segundo dados de sindicatos da categoria.
Em resposta, o governo francês apresentou um projeto de lei de proteção de menores. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin defendeu na quarta-feira um despertar coletivo: “Devemos despertar coletivamente para que as crianças sejam ouvidas, para que as vítimas estejam no centro do processo penal, e não os autores”.
Darmanin afirmou que o movimento “#MeToo infância” na França “está apenas começando”.
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